sessão Naftalina
Título sorteado ao acaso: As pedras flutuam num mar de imaginação
As pedras guiavam a água, criando caimhos, pequans colinas e recantos onde a corrente espumava. Tinha chovido a noite inteira e agora a lama sugava as suas botas vermelhas. Via a casa ao longe. Mais pedra, cinzenta e enrugada como o rosto da avó. A casa era a avó. «Voltar a casa», pensou. As memórias e o sonho confundiam-se.
Chegou ao ponto do rio que conhecia melhor, cinco passoa depois do grande castanheiro onde tinha havido um baloiço.
Quem saltasse do baloiço para o rio, ganhava. Das primas, só a mais nova se atrevia. Lembrava-se dos risos e não saber o que era tempo. Os Verões eram a infância perpétua. Olhava para as pedras do rio. Seria aquela? Durante algum tempo ainda a reconhecera. Grande como uma lua, redonda e lisa, almofada muito branca. Aquele branco fora a última coisa que vira no seu voo. Depois, foram os rostos estranhos, e as vozes aflitas. Sou a mãe, sou o pai, sou a avó...
O que era isso? O que era a água que lhes caía dos olhos?
Tiveram de lhe ensinar tudo, outra vez, diziam. Com o tempo melhorou.
Tinha um nome, uma casa, uma escola, pai, mãe, avó. Um dia depois do outro. Agora, já não ficava tanto tempo parada a olhar para as pedras.
Aprendeu a usar a imaginação e a fingir que sim, que sim, que se lembrava deles todos.
sábado, abril 06, 2019
Água
sessão Natalina
IMAGEM - mil palavras para uma imagem
IMAGEM - mil palavras para uma imagem
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| foto: Francisco Feio |
Água
Chorava, chorava, chorava.
Já nem era choro, eram mares de desconsolo, despeito, orgulho ferido.
- Rapariga, o que vai para aí...! - dizia o pai à cabeceira da mesa, olhando para a torrente que empapava a toalha.
A mãe fazia-lhe os pratos perferidos, mas o croquetes com arroz e tomate ficavam aguados mal o prato pousava à sua frente.
E quem abrira a torneira? O Júlio, calro. Um ano de namoro desfeito com um «Olha, acho que a Yara é mais mulher para mim.» A Yara? A Yara gorda? A Yara que era até mais velha e já tinha um filho? A Yara da borbulha na testa? Essa Yara.
E ela, ela que punha máscaras de maionese e ovo nos cabelos compridos, ela que andava na zumba, ela que tinha lábios de Angelina e os colegas do escritório todos os malucos. E ele escolhia a Yara?
A água corria e corria.
O pai já não aguentava. Sai da mesa antes do café e foi buscar a máquina fotográfica. Puxou-lhe um braço e levou-a para a rua.
- Mostra-me lá o que te faz chorar?
- Ó pai... é tudo...
- Tudo!? O que é tudo? O céu? As pedras? Os carros...?
- Ó pai... deixe-me... Olhe é o céu, sim, que está azul como no dia em fomos à outra banda.
Claque! O pai apontou a máquina para o céu e disparou.
- E mais?
- Oh... sei lá... Olhe é aquele café onde íamos à bica.
Claque.
- É o 735 que apanhávamos de manhã.
Claque, claque, claque: as flores que um dia tinham olhado, o banco do jardim, o carro da cor do dele, o croissant com creme, o maço de tabalho e mais e mais... Foram três rolos de 24.
Depois, já com o maço de imagens na mão, entrou-lhe no quarto e espalhou-as pelo chão.
- Agora vais ficar chorar tudo em cima destas fotografias, estás a ouvir? E depois acabou-se!
Na manhã seguinte, fotografias boiavam. Então, com muito cuidado, pai e filha foram pendurá-las no estendal e ficaram a vê-las pingar. E ela não chorou mais.
sábado, março 23, 2019
Moinho de carne
sessão Naftalina, Escrever Escrever
OBJECTOS - A maravilhosa vida de um objecto
escrever sobre um objecto trazido do texto Be Specific, in Writing Down the Bones, Natalie Goldberg
O moinho de carne
Sabe a ferrugem, cheira a vinagre. Olhos de metal, membros toscos, manivela de sangue. Em cima da banca de cores pastel, sabia que destoava, era mais ferramenta que utensílio. Um elefante, uma massa de ferro desajeitada. Não era segredo que o odiavam, não tinha lugar junto às redondezas belas e assépticas que soltavam graciosos bips e sensuais murmúrios enquanto lentamente misturavam levíssimas nats com polpas untuosas e coloridas.
Sabia lá o que era emulsionar, fazer espumas, bater em neve! Só tinha um verbo - e era duro e implacável: triturar.
Fingia-se de morto para não dar nas vistas e só à noite soltava o seu melancólico e dorido ranger.
OBJECTOS - A maravilhosa vida de um objecto
escrever sobre um objecto trazido do texto Be Specific, in Writing Down the Bones, Natalie Goldberg
O moinho de carne
Sabe a ferrugem, cheira a vinagre. Olhos de metal, membros toscos, manivela de sangue. Em cima da banca de cores pastel, sabia que destoava, era mais ferramenta que utensílio. Um elefante, uma massa de ferro desajeitada. Não era segredo que o odiavam, não tinha lugar junto às redondezas belas e assépticas que soltavam graciosos bips e sensuais murmúrios enquanto lentamente misturavam levíssimas nats com polpas untuosas e coloridas.
Sabia lá o que era emulsionar, fazer espumas, bater em neve! Só tinha um verbo - e era duro e implacável: triturar.
Fingia-se de morto para não dar nas vistas e só à noite soltava o seu melancólico e dorido ranger.
O Chefe não o podia ver. E todos os dias, vinha um novo insulto - primitivo, insalubre, arqueológico. Tentava rodar a sua manivela, ameaçava-o com o ferro velho.
Naquele dia foi o mesmo - os dedos gordos, suados e nojentos, meteram-se na sua boca e soltaram risinhos de troça. Até que começou a gritar.
Duas mulheres na igreja
sessão, escrita na igreja de S. Paulo
Duas mulheres na igreja
Frio, frio, frio.
Nem as velas, nem as flores, nem os dourados amenizavam a sensação. Lugar de abrigo não era.
À frente, os crentes. Um, de azul e com o cabelo branco, apoia a mão na cadeira e levanta-se, tremendo. Um lenço violeta vai para o pé do casal pardo. Mas nem cores luminosas afastam o mofo puído da pedra da igreja.
Atrás duas mulheres jovens, não juntas. Ovelhas tresmalhadas de direrentes rebanhos. Tristes, mas alerta. Olhando para dentro da sua angústia. Magoando-se com ela. Ainda se sobressaltando com dor.
Uma delas olha para baixo. Não reza - apenas reflecte no mistério do verniz estalado da mão direita. A outra olha em frente, parece que vai chorar a qualquer momento.
O padre fala de espinhos, cruzes e mortos. Depois cantam, e é ainda pior.
Insuportável, pensa a mulher do verniz. Que ideia, pensar que aqui havia alguma resposta. Respira alto e a mulher dos olhos fixos repara nela. A quaresma era o pão com manteiga da sua infância. O padre aqui é mais novo, mas são todos o mesmo pensou. Cada uma com uma história.
Olham uma para a outra e mergulham no caderno de dois jovens aprendizes de escrita que por ali estão.
Duas mulheres na igreja
Frio, frio, frio.
Nem as velas, nem as flores, nem os dourados amenizavam a sensação. Lugar de abrigo não era.
À frente, os crentes. Um, de azul e com o cabelo branco, apoia a mão na cadeira e levanta-se, tremendo. Um lenço violeta vai para o pé do casal pardo. Mas nem cores luminosas afastam o mofo puído da pedra da igreja.
Atrás duas mulheres jovens, não juntas. Ovelhas tresmalhadas de direrentes rebanhos. Tristes, mas alerta. Olhando para dentro da sua angústia. Magoando-se com ela. Ainda se sobressaltando com dor.
Uma delas olha para baixo. Não reza - apenas reflecte no mistério do verniz estalado da mão direita. A outra olha em frente, parece que vai chorar a qualquer momento.
O padre fala de espinhos, cruzes e mortos. Depois cantam, e é ainda pior.
Insuportável, pensa a mulher do verniz. Que ideia, pensar que aqui havia alguma resposta. Respira alto e a mulher dos olhos fixos repara nela. A quaresma era o pão com manteiga da sua infância. O padre aqui é mais novo, mas são todos o mesmo pensou. Cada uma com uma história.
Olham uma para a outra e mergulham no caderno de dois jovens aprendizes de escrita que por ali estão.
Ampulheta
sessão Naftalina
Objectos
texto sobre a ampulheta de areia que marca 20 minutos
Vinte minutos azuis começam por saber a branco. Aos 18 já se mastiga uma meia bola e força. Dezasseis minutos e os grãos azuis ca3em em bico pelos dedos direitos ao papel. A areia suspira mais do que nós - farta da metáfora, dos castelos, dos grãos, da vida, do tempo, da históira. A areia quer ir para a praia comer uma bola de berlim com creme.
Aos 15 minutos, o vidro reflecte uma bolacha maria que estava para ali muito embasbacada com cara de si própria - as bolachas não sabem o que é bullying.
Dez minutos azuis, tempo para um esquecimento de infância. Uma dor mascarada de personagem, uma media-res com o resto das palavras que estão nas canetas.
Seis, cinco, quatro, hora do espalhanço. Três fins, três filhos, três fios. Dois amores. Um grão de desconfiança azul.
Objectos
texto sobre a ampulheta de areia que marca 20 minutos
Vinte minutos azuis começam por saber a branco. Aos 18 já se mastiga uma meia bola e força. Dezasseis minutos e os grãos azuis ca3em em bico pelos dedos direitos ao papel. A areia suspira mais do que nós - farta da metáfora, dos castelos, dos grãos, da vida, do tempo, da históira. A areia quer ir para a praia comer uma bola de berlim com creme.
Aos 15 minutos, o vidro reflecte uma bolacha maria que estava para ali muito embasbacada com cara de si própria - as bolachas não sabem o que é bullying.
Dez minutos azuis, tempo para um esquecimento de infância. Uma dor mascarada de personagem, uma media-res com o resto das palavras que estão nas canetas.
Seis, cinco, quatro, hora do espalhanço. Três fins, três filhos, três fios. Dois amores. Um grão de desconfiança azul.
segunda-feira, março 18, 2019
Azuis
sessão pinturas e canção Estou com os azuis, do Sérgio Godinho
Estou com os azuis (e sem substantivos)
Estou com os azuis. Estou com muitos. Estou com rios azuis e com gente que traz gente nos dedos com que escreve.
Os blues, eu sei, os blues que doem mais.
O desenho que não é azul está a chorar pelo vidro abaixo. Uma lágrima amarela que amanhã vai ser apanhada por uma pessoa a que apenas chamamos das limpezas e para a qual foram escritos os blues. Os azuis.
Escrever azul é escrever sobre o sangue - acho.
Estou com os azuis, e stou com os calores, estou com os aluis, os alunos azuis.
Amanhã choverão outras cores. Tomara que chova, tomara que se gaste toda a água azul que ainda tem de cair.
Arre, estou mesmo com os azuis.
Estou com os azuis (e sem substantivos)
Estou com os azuis. Estou com muitos. Estou com rios azuis e com gente que traz gente nos dedos com que escreve.
Os blues, eu sei, os blues que doem mais.
O desenho que não é azul está a chorar pelo vidro abaixo. Uma lágrima amarela que amanhã vai ser apanhada por uma pessoa a que apenas chamamos das limpezas e para a qual foram escritos os blues. Os azuis.
Escrever azul é escrever sobre o sangue - acho.
Estou com os azuis, e stou com os calores, estou com os aluis, os alunos azuis.
Amanhã choverão outras cores. Tomara que chova, tomara que se gaste toda a água azul que ainda tem de cair.
Arre, estou mesmo com os azuis.
sábado, março 09, 2019
Pão
sessão Naftalina, Escrever Escrever
UMA HISTÓRIA POR DETRÁS DE UM POEMA – Escrever com inspiração na poesia
inspiração: poema O pão e a culpa, Vitorino Nemésio; conto Pão, Margaret Atwood
Pão
Pão Nosso. Acordou com as palavras na cabeça. Sentou-se na cama à procura de outra posição para respirar - engraçado como a angústia punha grãos de areia no mecanismo automático do inspirar- expirar. Pão Nosso, pensou outra vez. À esquera dum som de mastigar molhado. A mulher sonhava. À direita, a janela. Puxou a cortina para o lado. Pensou como era silenciosa e fria aquela hora antes da madrugada. Quando era pequeno ia com o pai para a padaria. A geada congelava os lábios e magoava-lhe os olhos. Comia o primeiro pão do forno e ia para a escola. A professora varria a sala com questionários e desprezo. Ia comendo o pão escondido, às bolinhas.
Pão Nosso. A madrugada ampliou o seu murmúrio e a mulher acordou. Olhou para o relógio e levantou-se. Na cozinha as chávenas bateram. Beberam em silêncio, tensos, e saíram.
A manhã estava fresca. Caminharam lado a lado. Duas dúvidas, dois medos. A mulher levava um ramo de flores na mão. Avistaram a igreja e pararam por um momento. Receosos de enfrentar o que tinha de ser feito. Pão Nosso, pensaram o dois, sem saberam um do outro.
Mas três passos e estava feito.
Vieram os vizinhos, os primos da aldeia ao lado, os antigos colegas. O homens entravam e tiravam o chapéu. As mulheres miravam de alto a baixo.
Até que chegou o Padre. Ia começar. Levantaram-se todos, solenes, seguindo-o com os olhos. Uma prece zumbiu no espaço.
O homem respirou fundo.
E, finalmente, o Padre brandiu o hissope e abençou o Pão Nosso, a nova pastelaria snack da vila.
UMA HISTÓRIA POR DETRÁS DE UM POEMA – Escrever com inspiração na poesia
inspiração: poema O pão e a culpa, Vitorino Nemésio; conto Pão, Margaret Atwood
Pão
Pão Nosso. Acordou com as palavras na cabeça. Sentou-se na cama à procura de outra posição para respirar - engraçado como a angústia punha grãos de areia no mecanismo automático do inspirar- expirar. Pão Nosso, pensou outra vez. À esquera dum som de mastigar molhado. A mulher sonhava. À direita, a janela. Puxou a cortina para o lado. Pensou como era silenciosa e fria aquela hora antes da madrugada. Quando era pequeno ia com o pai para a padaria. A geada congelava os lábios e magoava-lhe os olhos. Comia o primeiro pão do forno e ia para a escola. A professora varria a sala com questionários e desprezo. Ia comendo o pão escondido, às bolinhas.
Pão Nosso. A madrugada ampliou o seu murmúrio e a mulher acordou. Olhou para o relógio e levantou-se. Na cozinha as chávenas bateram. Beberam em silêncio, tensos, e saíram.
A manhã estava fresca. Caminharam lado a lado. Duas dúvidas, dois medos. A mulher levava um ramo de flores na mão. Avistaram a igreja e pararam por um momento. Receosos de enfrentar o que tinha de ser feito. Pão Nosso, pensaram o dois, sem saberam um do outro.
Mas três passos e estava feito.
Vieram os vizinhos, os primos da aldeia ao lado, os antigos colegas. O homens entravam e tiravam o chapéu. As mulheres miravam de alto a baixo.
Até que chegou o Padre. Ia começar. Levantaram-se todos, solenes, seguindo-o com os olhos. Uma prece zumbiu no espaço.
O homem respirou fundo.
E, finalmente, o Padre brandiu o hissope e abençou o Pão Nosso, a nova pastelaria snack da vila.
sábado, fevereiro 23, 2019
Atrasado
sessão Naftalina, Escrever Escrever
FLUXO DE CONSCIÊNCIA - Como apontar no papel o
desconcerto da mente?
João, adolescente, nervoso e atrasado para um encontro. Borbulha na testa. O colega liga de 10 em 10 minutos, com piadas.
Duas horas. Já? Um vulcão no meio da testa - não espremas que ficas com marca. Ó mãe! Chata... e quando lhe espalmava a franja? Menino da mamã, lingrinhas, caquinchas, mariquinhas pé de salsa. O Rui, o Mário, o Zeca, e o Luís que tinha mijado as calças no recreio? Riu-se tanto que ia mijando também. O vulcão no meio da testa. Três olhos. João, O Incrível Tri.. tri, tri quê? Triolhudo? Triolhão? Bizzzz, bizzz. KE FAZES BRO? Larga-me, meu, não vês que tenho um vulcão na testa? Duas e vinte, estou feito. Bizz, bizz. Larga-me o telemóvel, meu. O Manel sabia falar com elas, não se importava. Sabia falar, elas falavam, tinham essa coisa de saber falar. E falavam mais depressa, tinham outras palavras. Mais palavras. Ele ficava a olhar. Elas sentadas na cantina, pintar os lábios de baton. Para quê? Não percebia, ficavam velhas, ficavam mais longe. Ai, estou tão gira, o Manel com aquela voz fininha, a gozar. Ó João dá-me um beijinho que estou tão gira. O Manel tinha quase bigode. Duas e meia. Estou feito, estou feito. Franja para frente, adeus vulcão.
sábado, janeiro 26, 2019
Tautograma
sessão Naftalina, Escrever Escrever
TAUTOGRAMAS
F
Fabricava Fagundes fartas façanhas. Fanfarronadas, fábulas fascinantes.
Fartos, filho e filha fingiam ficar felizes, findando fastidiados.
Farejanto fita, Fagundes fez finca-pé:
- Finórios, falsos, fiteiros ! - faiscava, fremindo.
Fleumátics, filho e filha filosofavam flacidamente:
- Facécia felicitada, flagelo finado.
Furibundo ficou Fagundes, fracturando falangetas. Fugindo fininho, filho e filha fintaram o o fogoso finório e fraternos faíscaram:
- Foleiro!
AEIOU
Antero alternava amarrado à alabarda
Entediado esperara estender-se enfim esparramado
Ia imaginando ingénuo incríveis iguarias
O orgulho obstruído observou obstáculos
Ululante, uivou, unilateralmente
TAUTOGRAMAS
F
Fabricava Fagundes fartas façanhas. Fanfarronadas, fábulas fascinantes.
Fartos, filho e filha fingiam ficar felizes, findando fastidiados.
Farejanto fita, Fagundes fez finca-pé:
- Finórios, falsos, fiteiros ! - faiscava, fremindo.
Fleumátics, filho e filha filosofavam flacidamente:
- Facécia felicitada, flagelo finado.
Furibundo ficou Fagundes, fracturando falangetas. Fugindo fininho, filho e filha fintaram o o fogoso finório e fraternos faíscaram:
- Foleiro!
AEIOU
Antero alternava amarrado à alabarda
Entediado esperara estender-se enfim esparramado
Ia imaginando ingénuo incríveis iguarias
O orgulho obstruído observou obstáculos
Ululante, uivou, unilateralmente
terça-feira, janeiro 08, 2019
Farmácia
aula - história com aromas
Farmácia
Odeio gatos, odeio gatos, pensava Amílcar à medida que subia as escadas estreitas para o sótão.
- Amilcarinho, não deixes fugir!
A voz esganiçada da avó subia com ele pela escada. O Alfredo tinha fugido outra vez. Era o gato da avós, gordo, mimado e listrado. Amílcar e Alfredo desprezavam-se e o gato mostrava-o sempre que podia. Saltava do colo da avó e obrigava o neto a procurá-lo. Desta vez tinha subido para o sótão - outro ódio de Amílcar. Quando era pequeno, a avó levava-o para o aí para lhe mostrar frascos, seringas, cadinhos, balanças, pipetas e outros instrumentos do avô farmacêutico. Os utensílios de metal com as suas formas agudas faziam disparar uma imaginação mórbida e punham-lhe o coração a bater mais forte. Depois, havia os postais cartas, revistas, estolas com cabeça de animais, móveis que rangiam e o maldito pó áspero que lhe secava a garganta apertada.
Chegou lá acima, as patas do animal faziam tchap-tchap - Amílcar viu-o empoleirado no parapeito da pequena janela que dava para o telhado. Não... não... estúpido animal. Mas Alfredo já tinha saltado. Amílcar pôs a cabeça de fora - lá estava, olhando-o trocista, a chupar as folhas de uma grande trepadeira. No ar espalhava-se um cheiro forte, familiar - pó, papel velho, roupas... ia desfiando Amílcar à procura daquele aroma. Mas o cheiro vinha lá de fora. Seria a planta? Amílcar espreitou - os ramos vinham dos vasos da varanda, em baixo, e subiam fortes cobrindo quase todo o telhado.
Amílcar esticou o braço e puxou um ramo. Aquelas folhas... cheirou de novo. Seria possível...? Esmagou as folhas na mão e cheiro de novo. Não era especialista, mas só podia ser uma coisa... erva!, aquilo era erva! Olhou para o gato que continuava a chupar os ramos. Não admira que seja tão lento!, pensou. A avó saberia? Coitada, nem imaginava, nem podia entender, mesmo que lhe explicasse!
Alfredo subiu, pesado e vagaroso.
Na saleta, a avó dormitava. O gato aninhou-se no seu colo. Olhou para o relógio. Não podia sair antes das seis. Era o ritual. Olhou em volta, tudo como sempre - os vasos, as velhas aguarelas nas paredes, também pintadas pelo avô, as cortinas de crochet com ramagens... Folhas pontiagudas, triangulares. Amílcar focou os olhos... Depois olhou de novo para as aguarelas - entre frutos e fores, lá estavam as folhas de novo. Olhou para os grandes vasos. No meio das cameleiras, dos fetos, das hidrangeas, as folhas triangulares, serrilhadas. Erva, erva, marijuana em todo o lado! Lembrou-se da «farmácia». A anedota da família... os avós, já velhotes, que passavam as tardes ainda à volta do antigo ofício do avô. Nos jantares riam e encolhiam os ombros. A imagem voltou. Ele a chegar e a avós abrir ao a porta, rosada, sorridente, apressada, «Entra filho, entra, estamos na farmácia!» E ele seguia-a para o sótão. O avô com o almofariz esmagando, esmagando e ela pesando, fazendo pacotinhos e pacotinhos e pacotinhos.
Farmácia
Odeio gatos, odeio gatos, pensava Amílcar à medida que subia as escadas estreitas para o sótão.
- Amilcarinho, não deixes fugir!
A voz esganiçada da avó subia com ele pela escada. O Alfredo tinha fugido outra vez. Era o gato da avós, gordo, mimado e listrado. Amílcar e Alfredo desprezavam-se e o gato mostrava-o sempre que podia. Saltava do colo da avó e obrigava o neto a procurá-lo. Desta vez tinha subido para o sótão - outro ódio de Amílcar. Quando era pequeno, a avó levava-o para o aí para lhe mostrar frascos, seringas, cadinhos, balanças, pipetas e outros instrumentos do avô farmacêutico. Os utensílios de metal com as suas formas agudas faziam disparar uma imaginação mórbida e punham-lhe o coração a bater mais forte. Depois, havia os postais cartas, revistas, estolas com cabeça de animais, móveis que rangiam e o maldito pó áspero que lhe secava a garganta apertada.
Chegou lá acima, as patas do animal faziam tchap-tchap - Amílcar viu-o empoleirado no parapeito da pequena janela que dava para o telhado. Não... não... estúpido animal. Mas Alfredo já tinha saltado. Amílcar pôs a cabeça de fora - lá estava, olhando-o trocista, a chupar as folhas de uma grande trepadeira. No ar espalhava-se um cheiro forte, familiar - pó, papel velho, roupas... ia desfiando Amílcar à procura daquele aroma. Mas o cheiro vinha lá de fora. Seria a planta? Amílcar espreitou - os ramos vinham dos vasos da varanda, em baixo, e subiam fortes cobrindo quase todo o telhado.
Amílcar esticou o braço e puxou um ramo. Aquelas folhas... cheirou de novo. Seria possível...? Esmagou as folhas na mão e cheiro de novo. Não era especialista, mas só podia ser uma coisa... erva!, aquilo era erva! Olhou para o gato que continuava a chupar os ramos. Não admira que seja tão lento!, pensou. A avó saberia? Coitada, nem imaginava, nem podia entender, mesmo que lhe explicasse!
Alfredo subiu, pesado e vagaroso.
Na saleta, a avó dormitava. O gato aninhou-se no seu colo. Olhou para o relógio. Não podia sair antes das seis. Era o ritual. Olhou em volta, tudo como sempre - os vasos, as velhas aguarelas nas paredes, também pintadas pelo avô, as cortinas de crochet com ramagens... Folhas pontiagudas, triangulares. Amílcar focou os olhos... Depois olhou de novo para as aguarelas - entre frutos e fores, lá estavam as folhas de novo. Olhou para os grandes vasos. No meio das cameleiras, dos fetos, das hidrangeas, as folhas triangulares, serrilhadas. Erva, erva, marijuana em todo o lado! Lembrou-se da «farmácia». A anedota da família... os avós, já velhotes, que passavam as tardes ainda à volta do antigo ofício do avô. Nos jantares riam e encolhiam os ombros. A imagem voltou. Ele a chegar e a avós abrir ao a porta, rosada, sorridente, apressada, «Entra filho, entra, estamos na farmácia!» E ele seguia-a para o sótão. O avô com o almofariz esmagando, esmagando e ela pesando, fazendo pacotinhos e pacotinhos e pacotinhos.
sábado, dezembro 15, 2018
A verdadeira história
Sessão Naftalina, Escrever Escrever
VERDADE E FICÇÃO
Tão
verdadeiro que parece história. Apagar as fronteiras entre real e ficção.
Escrever para recontar a verdade.
texto de inspiração: História de Julieta, A Santa da Baviera, Gonçalo M. Tavares, in Histórias Falsas
A verdadeira história de Romeu e Julieta
Julieta, discípula de Platão, sonhava em sair da caverna. Sabia que para tal tinha de comer o fruto da árvore da sabedoria. A árvore era guardade por Sísifo, o que trepava e descia todo o dia.
O jovem Romeu fazia parte do grupo de estudantes atenienses que devotamente se sentava aos pés do mestre enquanto comiam azeitonas e se abanavam com folhas de videira.
Ao contrário dos companheiros, Romeu gostava mais de lutar do que de ler, o que o tornou presa fácil para a pérfida Julieta.
Numa dessas tardes em que Platão e os discípulos se divertiam a fazer jogos de sombras, Julieta chamou Romeu e deu-lhe o ceptro de luz sagrada com o poder de cegar Sísifo. Desastrado, Romeu apenas consegui deitar fogo à árvore, tornando os frutos mágicos inúteis maçãs assadas. Romeu e Julieta acabaram por ser expulsos da caverna por terem trazido o ridículo à sua tribo, hábito que até então só era conhecido entre os bárbaros.
sábado, dezembro 01, 2018
Precisa-se
Sessão Naftalina, Escrever Escrever
FORMAS – Os
classificados
Precisa-se de
protagonista. Vende-se página em branco.... Escrever a partir da forma e
fórmula dos anúncios classificados.
Quarto a cavalheiro sério
- É o habitual, D. Ester?
- É o habitual, Sr. António - concordou a senhora pequenina de bengala com cabeça de pato. «Oferece-se quarto a cavalheiro com serventia de cozinha», seguido dos etceteras. Há um ano que a D. Ester colocava este anúncio no jornal. Depois de ter ficado viúva, duas vezes, coitada!, alugava quartos para ajudar às despesas. A vila comentava que, se havida pessoa nascida para a desgraça, era a D. Ester, coitada!
O primeiro marido tinha-a abandonado no dia em que ela fez 30 anos. Anos mais tarde, e depois de resolvidas muitas confusões legais por causa de um marido desaparecido, Ester voltava a casar. Mas este segundo marido, não lhe tinha saído bom. Pouco tempo depois do casamento, revelou-se fraquinho, meio enjoado. De casa para o jardim, do jardim para casa, sempre cada vez mais devagarinho. Mas havia astúcia, porque passado pouco tempo, devagarinho ou não, tinha-se posto a andar a meio da noite.
Desde aí tinham começado os alugueres do quarto. Já ia no quinto hóspede - uns mudavam de cidade, subitamente chamados por afazeres, outros nem davam justificação e deixavam a cama desfeita e o mês por pagar.
Na igreja, D. Ester suspirava consoladas pelas outras senhoras. Admiravam a sua resignação e o fervor da sua fé. Era uma coitada, diziam, nunca se lhe ouvia uma queixa, coitada!
Foi durante o encontro para preparar a procissão que o acidente se deu.
Um emigrante meteu mal a mudança na curva e o Mercedes deu duas voltas no ar antes de vir cair ao quintal da D. Ester. As senhoras nem deram por nada, mas lá fora a ambulância e os bombeiros apitavam direitos ao local. O condutor, milagre, saiu ileso, mas a viatura tinha ficado tão enganchada entre árvores e arbustos que foi preciso mandar buscar a grua.
Veio a grua e veio o povo observar a manobra. Depois de várias tentativas, o Mercedes lá veio no meio de poeirada e torrões de terra arrancados à propriedade da D. Ester.
Foi então que alguém gritou:
- Valha-me Deus! Aquilo não é uma caveira?
A ossada rolou pela estrada fazendo recuar toda a gente. Mas logo, se voltaram a aproximar. Miraram a caveira e depois o buraco no jardim. Em silêncio foram percebendo a formas: mais uma caveira, depois ossos longos, mais ao longe meio esqueleto e depois um corpo amortalhado onde ainda se conhecia o cabelo crespo e ruço do último hóspede da D. Ester.
Precisa-se
Sessão Naftalina
FORMAS – Os
classificados
Precisa-se de
protagonista. Vende-se página em branco.... Escrever a partir da forma e
fórmula dos anúncios classificados.
Precisa-se Lápis
Lápis, mas não muito duro para não rasgar as ideias, que são muito frágeis. Também não muito mole que deixe as palavras tão leves que passem despercebidas.
Deve vir afiado, para conseguir ir directo ao assunto e encontrar os caminhos estreitos por onde as histórias se escondem.
Em troca, oferece-se um estojo na companhia de família de canetas aclhedoras e hospitaleiras, desejosas de ouvir as histórias que virá contar.
Pode servir-se da borracha para apagar más memórias e do afia para as frases mais acutilantes. Terá ao seu dispor cadernos de folhas amarelecidas, mas cheias de charme, muito apreciadas pela famosa traça antiga.
Pede-se resposta manuscrita com entrelinhas.
sábado, novembro 03, 2018
Malarioterapia
sesssão Naftalina, Escrever Escrever
TEMA: PALAVRA DESCONHECIDAS
O que nos dizem as palavras. Como decifrar significados. Escrever a partir de palavras obscuras
Atufar
Crapulear
Malarioterapia
- Pode atufar mais um bocadinho...?
D. Mimi olhava para as mãos da Carol que há quinze anos lhe compunham a mise, ajeitando, escovando, ripando e dando mais ar aos seus tufos de cabelos.
- E os tratamentos, D. Mimi?
A senhora tinha uma doença crónica que só um médico tinha descoberto: o Professor Doutor Samós, com consultório no bairro há poucos anos. Ao princípio gerara desconfianças, a pronúncia esquisita, os bigodes muito luzidios... A própria D. Mimi tinha anunciado no cabeleireiro:
- Cá para mim, crapulear é que não! - referindo-se ao preço escandaloso de 200 € por consultas onde se aspergiam os pacientes com vapores e se colocavam pedras quentes nas costas.
Mas, talvez o calor lhe soubesse bem, porque o certo é que tinha continuado a frequentar o consultório. E agora era com orgulho que entregava a sua doença crónica à inovadora terapia do Doutor Samós: a malarioterapia - inovador e pioneiro tratarmento conta a obsessão por malas.
sábado, outubro 20, 2018
Escritor e Leitor
na sessão Naftalina
Está aí alguém?
Quem é? Quem és?
Preciso que me digas ao que vieste.
Sim - és tu quem tem de dizer - como se desenhasses as letras. Como se empurrases a minha mão, sempre mais, e mais, e mais para a frente.
É isso, empurrar. Como quem empurra um baloiço. Um só não chega para baloiçar.
E agora já te podia contar a história das duas crianças a inventar aventuras no parque infantil - talvez fosse uma história sobre a poética sabedoria infantil onde uma diria «E agora no meu reino, o sol era obrigatório!» Ou então os meninos desciam dos baloiços e perseguiam um gato e tu ficavas triste com a crueldade e tinhas de decidir se era preversa ou ingénua.
Vê só! Tudo isto por causa do baloiço que me deste há pouco.
Empurra outra vez, mais alto, mais alto. Quando subo, vejo os prédios ao longe. A mãe que prepara o jantar e que, sem saber, irá mudar de país por causa de um primo loiro que se demora a olhar para ela. Que história queres?
TEMA: ESCRITOR E LEITOR
Escrever para quem? Escritores à procura de um leitor. O leitor como ponto de partida para o texto.
Está aí alguém?
Quem é? Quem és?
Preciso que me digas ao que vieste.
Sim - és tu quem tem de dizer - como se desenhasses as letras. Como se empurrases a minha mão, sempre mais, e mais, e mais para a frente.
É isso, empurrar. Como quem empurra um baloiço. Um só não chega para baloiçar.
E agora já te podia contar a história das duas crianças a inventar aventuras no parque infantil - talvez fosse uma história sobre a poética sabedoria infantil onde uma diria «E agora no meu reino, o sol era obrigatório!» Ou então os meninos desciam dos baloiços e perseguiam um gato e tu ficavas triste com a crueldade e tinhas de decidir se era preversa ou ingénua.
Vê só! Tudo isto por causa do baloiço que me deste há pouco.
Empurra outra vez, mais alto, mais alto. Quando subo, vejo os prédios ao longe. A mãe que prepara o jantar e que, sem saber, irá mudar de país por causa de um primo loiro que se demora a olhar para ela. Que história queres?
terça-feira, setembro 18, 2018
A rua pode ser, pode ser.
exercício aula EC
discurso do louco que dorme na rua, «A minha rua esqueceu-se de mim. Era uma rua que tinha Outono e um dia pensei que, apesar do sono arrastado de quem ia para o trabalho, tinha tanta sorte por poder pisar o amarelo-laranja-castanho-torrado das folhas das árvores.
Noutra altura, fui mesmo apanhá-las. Mas fui tarde demais, a rua já me estava a esquecer e a ir embora. Eu pressentia, mas não queria acreditar. A verdade é que agora sei que as ruas podem ser cruéis - parecem convidar-nos com as suas fachadas trabalhadas, as ruas pedras lisas, os seus desenhos sedutores. Mas depois de nos apanharem, fazem desaparecer o Norte e o Sul, deixam-nos perdidos à procura de uma mão. As ruas fazem troça de nós - sobretudo daqueles que um dia ficaram perdidos. As ruas são feitas de crianças de olhos esbugalhados e bocas secas. As ruas são feitas de esfomeados. As ruas são feitas de lágrimas frustradas.»
discurso do louco que dorme na rua, «A minha rua esqueceu-se de mim. Era uma rua que tinha Outono e um dia pensei que, apesar do sono arrastado de quem ia para o trabalho, tinha tanta sorte por poder pisar o amarelo-laranja-castanho-torrado das folhas das árvores.
Noutra altura, fui mesmo apanhá-las. Mas fui tarde demais, a rua já me estava a esquecer e a ir embora. Eu pressentia, mas não queria acreditar. A verdade é que agora sei que as ruas podem ser cruéis - parecem convidar-nos com as suas fachadas trabalhadas, as ruas pedras lisas, os seus desenhos sedutores. Mas depois de nos apanharem, fazem desaparecer o Norte e o Sul, deixam-nos perdidos à procura de uma mão. As ruas fazem troça de nós - sobretudo daqueles que um dia ficaram perdidos. As ruas são feitas de crianças de olhos esbugalhados e bocas secas. As ruas são feitas de esfomeados. As ruas são feitas de lágrimas frustradas.»
sábado, abril 28, 2018
para o futuro - imagem do dia
não sei se é possível entenderes - há 65 anos que dois lados de um mesmo país estavam divididos, como antes as duas Alemanhas de que lerás nos livros de História. Há alguns meses, da Coreia do Norte ouvíamos ameaças de um líder que parecia ter perdido o contacto com a realidade. Um menino grande, mas perigoso, por ser grande e com poder. Da Coreia do Norte quase nada nos chega - sabemos da miséria do povo, do culto do líder - estranho uso da palavra culto «culto», que devia ser homenagem com afecto e admiração, mas que, actualmente, significa apenas cegueira, dogma. Quase nada sabemos, dizia, mas temos a certeza da miséria, da repressão... É bonito o que aconteceu hoje, fico a imaginar as famílias, dos dois lados e a desejar que na Coreia do Norte se possa ver, se possa sentir como é possivel respirar melhor. É ainda cedo. Penso que acontecerá como na China, capitalismo económico, repressão em tudo o resto.
terça-feira, dezembro 20, 2016
Conto de Natal - O Menino
O Menino
O frio do deserto não tem corpo. O ar é tão seco e rarefeito
que, quando chega a noite e a temperatura cai, o frio gela o sangue e assusta a
alma dos homens. Devia ser assim antes do início da criação – apenas o escuro
total e aquele frio vazio, inquietante.
Percorrer o deserto é uma arte e uma astúcia. É preciso
reconhecer os sinais, fugir aos engodos dos sentidos, perceber pelo cheiro do
vento se a gente que lá vem é amiga ou inimiga. Baltasar ia sempre à frente, um
pano azul tapava a sua barba negra e os calcanhares nus batiam no dorso do
camelo que avançava lentamente. Gaspar, jovem e impaciente, ora avançava ou
recuava, atraído por uma palmeira, uma serpente, um redemoinho de areia.
Melchior, seguia pachorrentamente, de queixo descaído, quase dormindo. Os três
homens seguiam leves, de carga e de espírito.
Tinham deixado ricos presentes a Jesus, que tinha completado
os seus 8 dias. Depois de anos de especulação, tinha finalmente chegado o
Messias, o escolhido para espalhar a palavra de Deus. Toda a sua vida seria
agora orientada pelos poderosos sacerdotes do templo, todos os minutos dos seus
dias seriam guiados por um propósito e uma missão. Os três homens tinham ficado maravilhados com
o ritual, as palavras dos sábios e com as profecias vaticinadas para aquele
nascimento sagrado.
Poucos ainda sabiam da sua chegada. Numa região onde
fervilhavam os boatos, todos os dias aparecia alguém com a notícia do
nascimento do Menino. Ora tinha sido num oásis verdejante, ora numa gruta
escura, ora debaixo de uma romãzeira cheirosa, até se jurava que uma mulher
dera à luz o Salvador num mercado, ao meio dia, no meio de fardos de malaguetas
e laranjas, rodeada de cabras e burros.
Mas agora era mesmo Jesus. E era bom este acontecimento –
pensava Baltasar - oxalá pusesse fim à agitação constante, não era
aconselhável, nem sadio, tanto mexerico.
As estrelas cadentes riscavam o espaço de luz. Os dentes de
Gaspar brilhavam, rindo para o céu, com uma alegria infantil. Melchior acordou
sobressaltado.
- Já chegámos?
Baltasar e Gaspar olharam para ele com espanto antes de
desatarem a rir. Melchior, resmungava:
- O que é que tem? O que é que tem? Muito gostam vocês da
risota… Haviam de ter a minha idade… cabeças no ar… para a paródia estão sempre
prontos… tolos… criançolas…
E cabeceava novamente, embalado pelas suas palavras e pelo
balançar do camelo.
- Melchior! – gritou Gaspar.
- O que é que tem? O
que é que tem? – sobressaltou-se Melchior.
- Já chegámos…
Nazaré estava no horizonte. Cruzavam-se agora com viajantes
e mercadores vindos de vários caminhos. As conversas eram sempre as mesmas.
- … e então eu disse 20..., ele 15, eu desci para 18, e fiz
negócio, nada mau.
- … ainda há algum resto daquele licor de mel? Belo néctar…
- … diz que o menino vai nascer hoje em Nazaré, os
astrólogos fizeram os mapas e diz que não falha…
Lá estava a conversa outra vez. Os três homens gostariam de
poder dizer que Jesus já tinha nascido há uma semana. Mas só aos profetas
estava reservado fazer revelações. E esses ainda andavam em romagem de aldeia
em aldeia, sabe-se lá quando chegariam a Nazaré.
A aldeia fervilhava – era o dia de feira e os visitantes
ocupavam todas as estalagens e quartos particulares. Depois de baterem de porta
em porta, o melhor que os três homens conseguiram foi partilhar um estábulo com
uma outra família. Resignados, tiraram as mantas e entraram.
- José…? Tu aqui!?
Melchior cumprimentou José com um abraço. O moço era um
carpinteiro hábil, um pouco tímido e calado. Estava acompanhado por Maria, a
sua jovem esposa, despachada e decidida, ajeitava aos colchões de palha sem se
deixar atrapalhar pelo grande ventre. O casal saiu para ir à sopa no albergue
ao lado e os três homens instalaram-se.
- Conheces aquela? A Maria? – perguntou Gaspar.
- Quem não conhece…! – respondeu Melchior
Maria tinha uma certa fama… dizia-se fazia tudo para obter
favores – um corte de tecido, a melhor peça de carne, frutos raros, óleos
perfumados… sabia de segredos e falava
por meias-palavras, havia sempre equívocos com ela. O último, tinha resultado
naquela gravidez misteriosa. Algecira, a astróloga-parteira-feiticeira da
aldeia garantia que ela continuava virgem! Claro que se sabia que Maria e a
velha Algecira eram unha com carne, mas os vizinhos gostavam de histórias.
Outros dois mercadores entraram no estábulo e foram ocupar
um canto, comendo carne seca e bebendo vinho. O casal voltou e todos se
acomodaram para a noite. Uma estrela cadente passou rasa ao estábulo.
- O sinal! O sinal! – gritou um dos mercadores.
- Eh lá… - o outro mercador endireitou-se e ficou alerta.
No estábulo, os visitantes agitaram-se.
- Disparate! É apenas mais uma estrela! - disse impaciente Gaspar
- Não, meu amigo, isto não é uma estrela qualquer… repare na
trajectória, no brilho, uma chama…. como se anunciasse alguma coisa… - insistiu um dos mercadores.
- É isso, é isso! É a anunciação, é o salvador que chega
hoje! – concordava o outro.
- É preciso cautela a ver sinais, às vezes vêem-se coisas
que não estão lá…. – avisava Melchior.
- O senhor está a dizer que eu estou a inventar…? O senhor está
a dizer que eu não sei reconhecer os sinais…? O senhor está a duvidar na minha
experiência de mais de 40 anos em sinais…? – o mercador enfurecido avançava
para Melchior.
Os três homens, os dois mercadores e José estavam agora em
pé, uns gritando, outros tentando acalmar os demais.
- É o sinal, só pode ser o sinal!
- Mas como este já ouve muitos!
- Não é a mesma coisa!
- É sim senhor!
- É preciso é ter calma!
- É preciso é ter calma!
- Vem aí, vem aí – gritou uma voz aguda.
- Não pode ser!
- E quem é o senhor para ter essa certeza toda?
- Vem aí, vem aí – gritou de novo a voz aguda.
- Posso afirmar-lhe que sei! Não posso dizer-lhe como, mas
sei!
- Ora, assim também eu…
- Calem-se idiotas, não vêm que vem aí? – a voz aguda
sobrepunha-se agora. Era Maria agarrada à barriga.
- Maria! – gritou José.
Os três homens correram ao albergue à procura de ajuda. Um
mercador aproximou-se de Maria.
- Minha senhora, é…. é ele….?
Maria abriu muito os olhos, vinha aí mais uma contracção.
- A aldeia está cheia, os mais poderosos e ricos mercadores
da região já cá estão, as estrelas falaram… diga, diga, senhora... viu o anjo…?
Maria teve apenas um segundo de hesitação antes de soprar:
- Vi anjo….
- O Senhor seja louvado…. é ele…? Diga senhora… é ele?
E Maria repetiu:
- É ele… é ele…
O mercador gritou de alegria e correu para fora do estábulo
gritando a boa nova a todos.
A criança estava já aninhada nos braços da mãe. José, com um
ar perdido, mirava os dois, muito quieto. Um após outro, os visitantes entravam
no estábulo, ajoelhavam-se e depositavam presentes: moedas, sedas raras, jóias
azuis e também cabritos, garrafas de vinho, mel, cestas de fruta, ovos, pães e
bolos. O mercador tudo anotava. Aproximou-se do casal.
- 50, 50, está bem assim para si, José?
José continuava embasbacado, sem dizer palavra. Maria adiantou-se.
- 60 para nós!
- Oh, minha senhora… isso assim… - protestava o mercador.
- 60! Já disse, ou acaba-se já tudo!
- Pronto… pronto… - concordou o mercador.
Os três viajantes do deserto estavam do lado de fora, agora
era impossível romper a multidão que se apinhava à porta do estábulo. Por todo
o lado se ouviam os comentários:
- É o verdadeiro Jesus! Olhou para mim e senti-me uma coisa…
- Até vieram os três maiores reis dos confins da terra…
- Trouxeram alforges atestadinhos de ouro, incenso e mirra!
- Ó Jacob, o que é a mirra…?
- Ó Jacob, o que é a mirra…?
- Acho que é uma resina, para remédios ou embalsamar… ou sei
lá o quê…
- Cruzes, canhoto! Para embalsamar!? Não sabiam oferecer uma
coisa mais própria?
Os três homens estavam atónitos.
- Melchior e agora…?
- Agora, nada… a história há-de fazer-se como se há-de
fazer.
Gaspar calou-se, intimidado com as palavras sábias do velho.
Baltasar suspirou - ultimamente Melchior só dizia aquelas coisas vagas que,
francamente, espremidas, não significavam nada… Lentamente puseram-se a caminho.
E de novo entraram no deserto, com a sua escuridão do princípio do mundo, o seu
frio oco e as suas estrelas que riscavam o céu com a maravilha do acaso.
-- desafio dos alunos de Escrita Criativa da Escrever Escrever
quinta-feira, agosto 18, 2016
poetry
think of it
as a
commission
think of it
think of
writing
think of
a city
Lisbon,
Lisboa,
a soft
sound in a strange language
a round
name
a home, a
haven, a harbour
an anchor
in light
dark dimming days
think of it
the
streets,
the tears,
the people
the people
the same
people,
exactly the
same
since the
beginning
through the
golden ages,
fires and
earthquake and revolutions and parade
the same
pride
the same
begging
the same
cunning
the same
sadness
the same
suspicion
the same
credulity
the same
family
think of it
think of
writing it
the white,
the blue, the black
the birds,
the heath, the river, the traffic, the bridge, the church, the coffee, the
sparkle, the wine, the counter, the trash, the noise, the discovery, the
castle, the roofs, the sight
the ridicule
memory home
family breath
think of it
a woman and
a city
the same
think of it
as a commission
as
something
to do
a woman and
a city, the same
an entity
and one day
the city is stolen from her
how to
write it
think of it
---
now
write about
saudade
the feeling
sure
every
language knows it
longing
yearning
pinning
missing
sure sure
the pain of
goodbye
the nausea
of never again
the ripped
limb
the knot in
the throat
the punch
in the stomach
no use
hiding from it
no point
protecting from it
what hurts
us makes us weaker
like it
should
but there’s
that moment
but there’s
that knowing
that seeing
is the beginning of not seeing
and you
long and fear that moment
and wish
you could delay it
knowing
not seeing
is the probability of seeing
and seeing
is the certainty of not seeing
it must be
saudade
quarta-feira, julho 13, 2016
Celeste, Celeste...
Exercício: a estante do Jorge
Como é dia 13, pegar num livro, ir à página 13 (ou à 13ª página
escrita), 13ª linha, copiar a frase e continuar.
(“Estes Amores difíceis”, Júlio Machado Vaz)
Mas assim serás tu a chamar o Eduardo. E tu sabes como ele é –
disse a Celeste baixinho.
Estavam sentados à mesa do almoço. O cunhado enrolava bocadinhos de pão
nas mãos que depois arrumava nos quadradinhos vermelhos e brancos da toalha de
plástico. Os pratos ainda estavam na mesa, cheira a caldeirada e a vinho tinto
do barril. As janelas estavam abertas ao calor da tarde. De costas para eles, o
papagaio vigiava o hostel em frente.
O cunhado virou-se para trás e Celeste seguiu-lhe o olhar.
- Ainda me lembro do dia em que entrou nesta casa…. tão peladito,
amarelinho… piava tão baixinho…
O papagaio virava o pescoço de um lado para outro, de vez em quando
soltava uns piados estranhos, estridentes, mas como que abafados.
- Não consigo vê-lo assim… – queixava-se Celeste com o rosto vermelho.
- Já falámos disso… - disse o cunhado impaciente – vamos estragar a
nossa vida?
- Eu sei, eu sei… coitado do Eduardo!
O papagaio sobressaltou-se e voou do seu poleiro. As largas asas verdes
e laranjas esvoaçaram à volta do casal e assustaram-se com a atrapalhação do
cunhado a tentar enxotá-lo.
- Fica quieto, fica quieto – pedia a Celeste.
- Diz mas é isso a ele!
- Ai… tu já sabes como ele é, fica quieto que ele poisa.
O papagaio descansou enfim na mesa. Deu uns passos curtinhos, para a
frente e para trás. Ouvia-se o bater das suas patas contra a toalha de plástico
e aqueles horríveis piados abafados.
Agitava a cabeça nervosamente de um lado para o outro, tentando
livrar-se do elástico que lhe prendia o bico.
- Bem, vamos lá – disse o cunhado decidido, lançando-se para o bicho.
- Tira o elástico! – gritou Celeste – Dá-lhe um último gostinho!
O cunhado puxou o elástico e o papagaio soltou a voz:
- A Celeste anda a comer o cunhado! A Celeste anda a…
Não acabou a frase. As mãos fortes do cunhado retesaram-se e num
segundo torceram o pescoço ao papagaio Eduardo.
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