sexta-feira, janeiro 25, 2013

Versos de puro nada






Farei versos de puro nada:
de mim, de gente desvairada,
da juventude, ou da amada,
de nada falo,
que os trovei ao dormir na estrada
sobre um cavalo.

Não sei em que hora vim ao mundo,
não sou jocundo ou furibundo,
não sou caseiro ou vagabundo,
sou sempre o tal
que o fado à noite marcou fundo
num monte astral.

Não sei se durmo ou velo, não,
sem a alheia opinião;
quase se parte o coração
com dor cordial
não ligo mais que a um formigão,
por S. Marcial.

Doente estou, creio que morro,
e só o sei por algum zorro,
A um bom médico recorro,
e não sei qual,
bom é, se obtenho o seu socorro;
mau, se estou mal.

Tenho amiga, não sei quem é,
pois nunca a vi, por minha fé;
para mim, santa não é, nem ré,
o que é igual:
normando ou francês nem ao pé
do meu quintal.

Nunca a vi, e tem o meu amor;
nunca me fez dano ou favor;
se a não vejo não sinto dor,
não ganho um galo;
sei de mais bela e bem melhor
e que mais vale.

Não sei quel é seu horizonte,
se o da planície ou o do monte,
nem digo o mal de que ela é fonte;
bom é que cale;
sofro que fique aqui defronte,
parto, afinal.

Fiz os versos, de quem não sei,
e por alguém os mandarei
que os mandará por outro meio
a Anjou ideal
para que venha do seu seio o
contra-sinal.

Guilherme VII de Poitiers, Duque IX de Aquitânia (1071-1126)


Estes versos puro nada de Gulherme de Poitiers fizeram-me andar 4 dias de página em página e voltaram a acender o meu fascínio pela poesia trovadoresca.
É o primeiro trovador a escrever em língua vulgar, "enaganador" de mulheres, excomungado duas vezes, bisavô de Ricardo Coração de Leão - mais que motivos para me interessar por ele. 
Tenho a certeza que, perguntando, não se acertaria no século do poema.
Versos para enviar enviar à amada "para que venha do seu seio o contra-sinal."  A Dama dos trovadores, o amor ideal, sublimado, inalcançável.  Li que o comparam à agalma grega, mas aqui sem posse ou materialização : “O amor cortês é uma maneira inteiramente refinada de su­prir a ausência de relação sexual, fingindo que so­mos nós que lhe pomos obstáculo. É verda­deira­mente a coisa mais formidável que jamais se inventou", disse Lacan. 
Numa leitura, que depois perdi, acho que o "puro nada" era a a própria Dama, o que faz sentido. Noutra comparavam-no ao "não sou nada" do Álvaro de Campos, e muito do Pessoa, mas acho que não é bem isso.
Falta dizer que cheguei ao Guilherme Trovador à procura de literatura sobre cartas de amor, de que os poemas trovadorescos seriam a primeira expressão (na verdade não são rigorosamente o primeiro, há por aí uma pedra na net com a primeira carta de amor entalhada, mas seriam a transposição/sublimação em palavra). Enfim, ficava mais outros 4 x 4 dias seguindo estas pistas. 





 

 



segunda-feira, janeiro 21, 2013

Amor em japonês


(na foto, capa da 1ª edição japonesa de "A sul da fronteira, a oeste do sol", de Murakami)

Gosto de japoneses e chineses, se calhar devia gostar mais do Murakami, mas não sei ainda. Ontem num par de horas li "A Sul da fronteira, a oeste do sol", é uma história bonita, bem escrita - não sei se é um Casablanca japonês como diz a capa, mas é a história de um amor, como os amores que temos atravessados.
 Murakami tem a seu favor gostar de jazz, há até uma página na net com a lista de canções que aparecem nos seus livros.
Neste livro fala do "South of the border" que só encontro versões pouco interessantes, mas também do Pretend, do Nat King Cole, que gosto sempre de ouvir. Na letra, encontrei um bom resumo da situação em que este livro me chegou às mãos:
And if you sing this melody 
you'll be pretending just like me 
so why don't you pretend

Pérolas, em bruto


Vi "Das schreckliche Mädchen" de Michael Verhoeven (que nada tem a ver o famoso Paul com o mesmo apelido) traduzido em inglês para "The nasty girl", uma tradução não faz justiça ao filme.

É baseado na história verdadeira de Anna Rosmus que investigou o passado nazi da sua cidade natal, Passau, e que, por causa disso acabou por ter de ir viver para os Estados Unidos.

O assunto é sério e dramático, mas transposto para um filme cheio humor e episódios desconcertantes - uma árvore dos milagres onde raparigas adolescentes penduram fotos e recados, cenários magníficos projectados atrás dos personagens, crianças travessas com ciúmes dos irmãos mais novos, pais e filhos que gritam recados à janela, velhotes matreiros... câmaras que param e arrancam.

Parece percussor da Amélie - toda a gente gostou da Amélie, e por isso é quase enjoativo falar dele. Este é menos sofisticado, menos fx, menos cores vibrantes - mas o mesmo universo poético e irónico.
Uma pequena pérola do cinema.