quarta-feira, dezembro 20, 2006

Os juízes e o seu mundo arrumado e cordial.


A associação sindical de Juízes, um colectivo, não um indivíduo, disse que nos casais homossexuais não se podia considerar que existe violência doméstica até porque, entre outras razões, não há superioridade física de um dos elementos.
Já uma vez um advogado, esclarecido, competente e até conhecido na praça, tinha feito o comentário "deus nos livre dos juízes". Parece que sim: mal formados, pouco cultos e com evidentes falhas de ajustamento ao real.
É tudo absurdo...
E é sobretudo preconceituoso.
Traduzindo, os casais homossexuais não são casais. Dizem-no os taxistas, as senhoras que tomam chá e bolos nas pastelarias, a pequena burguesia de bairro, os padres e os recebem as suas hóstias. Já se sabe que a sociedade é fechada, conservadora, nalguns casos mesmo tacanha. Os juízes vão a reboque quando, pela sua formação e pelo simbolismo e privilégio do cargo, deviam ir à frente.
Inquieta pensar que são estas as pessoas que julgam e decidem penas.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Who's who dos reclusos: Luandino Vieira, Pynchon...




Como já alguém disse, quem não aparece e não responde aos jornalistas ganha logo o fama de "recluso". Hoje voltei a ouvir esta palavra, adjectivando Luandino Vieira. O escritor responde a uma entrevista no Público e continua amanhã no Mil-Folhas.
Em Maio passado, Luandino recusou o Prémio Camões, um prémio que "nasceu torto", diz.
"- O que é que está torto?
- Não posso dizer. Não me compete. Era muita vaidade minha pensar que penso melhor que as pessoas que o gizaram e continuam a atribuir."
Um homem inteligente e elegante.


Sons

A guitarra
é som antepassado

Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.

Chorei fado.

Que importa hoje
se o recuso:

o ngoma é o som adivinhado

Luandino Vieira, No reino de Caliban II


Pynchon, vá lá... deu há pouco notícias. Além do último livro, o Daily Telegraph publicou a semna passada uma carta do escritor, a propósito da acusação de plágio contra Ian McEwan.



Enquanto uns e outros se vão tirando as medidas pela media que produzem, é um alívio encontrar resistentes.
Não resisto a uma "emily":

I'm Nobody! Who are you?
Are you Nobody Too?
Then there's a pair of us!
Don't tell! they'd advertise you know!

How dreary to be Somebody!
How public like a Frog
To tell one's name the livelong June
To an admiring Bog!


quinta-feira, dezembro 07, 2006

imagem do dia: cratera Victoria, Marte

(Nasa)

um dilema encenado aos gritos no telemóvel

Um homem na rua aos gritos no telemóvel: "eu sou uma pessoa estranha?? EU, EU? Estranha és tu, ouviste. Não queres ? Não queres ? ... "

... Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?...

pobres ricos

Há números que é preciso saber:
considera-se que vive no limiar da pobreza quem tem rendimentos abaixo de cerca de 440 €, cerca de 60% do salário mínimo, (uns 80 contos em dinheiro antigo).
Vivem assim em Portugal cerca 2,2 milhões de pessoas.

domingo, dezembro 03, 2006


Hoy siento en el corazón
un vago temblor de estrellas,
pero mi senda se pierde
en el alma de la niebla.
La luz me troncha las alas
y el dolor de mi tristeza
va mojando los recuerdos
en la fuente de la idea.

Todas las rosas son blancas,
tan blancas como mi pena,
y no son las rosas blancas,
que ha nevado sobre ellas.
Antes tuvieron el iris.
También sobre el alma nieva.
La nieve del alma tiene
copos de besos y escenas
que se hundieron en la sombra
o en la luz del que las piensa.

La nieve cae de las rosas,
pero la del alma queda,
y la garra de los años
hace un sudario con ellas.

¿Se deshelará la nieve
cuando la muerte nos lleva?
¿O después habrá otra nieve
y otras rosas más perfectas?
¿Será la paz con nosotros
como Cristo nos enseña?
¿O nunca será posible
la solución del problema?

¿Y si el amor nos engaña?
¿Quién la vida nos alienta
si el crepúsculo nos hunde
en la verdadera ciencia
del Bien que quizá no exista,
y del Mal que late cerca?

¿Si la esperanza se apaga
y la Babel se comienza,
qué antorcha iluminará
los caminos en la Tierra?

¿Si el azul es un ensueño,
qué será de la inocencia?
¿Qué será del corazón
si el Amor no tiene flechas?

¿Y si la muerte es la muerte,
qué será de los poetas
y de las cosas dormidas
que ya nadie las recuerda?
¡Oh sol de las esperanzas!
¡Agua clara! ¡Luna nueva!
¡Corazones de los niños!
¡Almas rudas de las piedras!
Hoy siento en el corazón
un vago temblor de estrellas
y todas las rosas son
tan blancas como mi pena.

Canción Otonal, Federico García Lorca