terça-feira, outubro 24, 2006

Sim




Sim, claro que sim à despenalização do aborto.
É com algum espanto que vejo colunistas escreverem que falta informação ou "bloguistas" a acusar o tabú abrindo páginas alternativas...

Numa vista de olhos rapidíssima pela abundante informação disponível na net soube que na Holanda o que se discute actualmente é só as mulheres menores de 21 anos terem direito a pílula gratuita, que a taxa de mulheres casadas que nos anos 80 usava contraceptivos regularmente era de cerca de 80% na Finlândia e de 30% em Portugal (onde a publicidade aos contraceptivos era proibida até 1976. Já agora, o mesmo documento da ONU estimava 16 mil os abortos ilegais anuais no nosso país... ) Que entre os mais liberais estão os malvados dos chineses, os esquistos albaneses ou... os finlandeses, suecos, alemães, australianos... Que uma organização católica "pro-choice" detalha o argumento vida/não-vida:
"In theology, the question has traditionally focused on when is it most likely that God gives the developing fetus a soul, a discourse pretty much abandoned by both traditional and innovative theologians; in sociology, most often the capacity for relationships is central—when can one say a meaningful relationship exists between the fetus and society; in medicine, the weight is on viability and on the physical and mental capacity of the fetus—when could it survive outside the womb, when is there higher brain development. Fascinating speculation, but similar to arguments over the number of angels that could dance on a pinhead." Para esta organização americana, a discussão está um passo à frente: abordando o aborto de forma "respectful and compassionate" debate a utilização anestesia, de forma a minorar o sofrimento do feto.
Duro e desconfortável.
Mas pelo meio, artigo levanta questões interessantes: se a ideia é proteger os direitos do feto, o que se diria de retirá-lo e deixá-lo viver no ventre de outra mulher? Ou a ideia é perpetuar o papel tradicional da mulher-mãe?

Enfim... informação existe... mas a discussão moralista à volta do aborto não satisfaz. E, além disso, só contribui para a culpabilização da mulheres.

Onde eu estou é aqui:

"A woman does not exercise her right to abortion like she exercises her right to vote. For a woman, abortion is the considered answer to her personal, private problem; it is not a demonstratin of her views or beliefs", Ann Furedl, da organização bpas (British Pregnancy Advisory Service) , citada no documento de Abortion in Europe, 2005.

Esse problema pessoal e privado é atravessado por todo o tipo de dilemas: éticos, familiares, económicos, profissionais... Podem discutir-se todos. Mas à mulher põe-se uma questão muito prática que vai afectar toda a sua vida.
A maior parte dos países da Europa, só falando dos próximos, já conseguiu garantir que essa escolha íntima seja respeitada e apoiada. Não parece que esses países se tenham tornado mais desumanos ou "imorais".
Respirava muito melhor em Portugal se o sim vencesse o referendo.

Primatas e design inteligente.

Da inquietante América leio notícias sobre o Movimento do Design Inteligente.
Não... não é design... nem sequer parece muito inteligente...
Na América do MIT, de Silicon Valley, da Microsoft, da Google... pretende-se voltar à idade das trevas e ensinar nas escolas que o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Não... não é ensinar a história do cristianismo e da sua teoria de criação do mundo - é explicar que o Mundo foi obra e graça do Design Inteligente, daquele Ser que mora lá em cima.
Há uma versão "soft", digamos "agnóstica", defendendo que a teoria do design inteligente devia ser ensinada par a par com a teoria evolucionista!

Não é só folclore ou obra de grupúsculos isolados. Já está a acontecer em escolas americanas. Prova disso, é que a comunidade científica se vê obrigada a defender a ciência e legitimidade dos seus métodos!





Este livro reúne ensaios de cientistas que refutam e denunciam um movimento retrógado e obscurantista.
Parece-me uma publicação importante. Ainda não o procurei por cá, mas ler a crítica e resumo foi uma lufada de ar fresco que parece que insuflou os meus neurónios.

A propósito o site / organização EDGE, que com paciência hei-de acrescentar aos meus links, parece recomendável sem reservas nem contra-indicações.

Livros e ironia


Um ou dois dias depois de ter escrito sobre os livros que me irritam, conheci uma das suas jovens escritoras. Durante os próximos dias irei cruzar-me bastante vezes com ela e com uma das suas criações. Aliás, procurando que a próxima tenha o mesmo ou maior sucesso do que as anteriores.

Belo e útil exercício de humildade: pôr o preconceito de lado, tirar de nós o cliché que vemos no outro.

Não acredito que seja fácil escrever, nem a "escrita fácil". Produzir 100 páginas parece-me um esforço equivalente a treinar para a meia-maratona - sem a vantagem da tonificação muscular.
Mas... tanta, tanta gente de talento e palavra inteligente que merecia aparecer em livro!

Há pessoas que acreditam em si próprias e outras que precisam que façam isso por elas.
Há mais talento numas que noutras?

sexta-feira, outubro 20, 2006

Abrandar por causa de um livro.


Rui Cardoso Martins escreve uma das páginas mais originais e interessantes da imprensa - "Levante-se o réu", na revista de Domingo do Público. Trata-se de uma crónica de tribunal, género mítico do jornalismo mas desaparecido da imprensa, escrito com riqueza, sensibilidade e algumas pontadas de humor.

É uma escrita onde se aprende sempre. Nunca se torna óbvia, não usa lugares-comuns, não exibe nem vasculha a vida dos réus e testemunhas.

Finalmente, uma boa razão para um jornalista ser notícia. “E se eu gostasse muito de morrer” é o nome inquietante e prometedor. O livro foi apresentado hoje e Lobo Antunes elogiou a sua qualidade, em oposição à “enxurrada de mediocridade” que se publica.

Ai… bem podemos querer ser caridosos, mas é preciso dizer que as livrarias estão cheias de lixo e bibelots.
“Fast-reading” igual à fast-food, com títulos estapafúrdios e cada vez com menor hipótese de escolha:
Segredos desvendados – … Bíblia, seitas, Papas, ditadores, nações obscuras, mulheres na cama, abdominais perfeitos, filhos prodígio…
Manuais, não como os honestos, mas disfarçados de romances ou “ensaios” que pretendem ser a resposta hip e definitiva a… realmente a tudo;
Os diários íntimos (muitos pronomes “mim”, “ti”, “-me”, “-te”, “-nos” são sempre de desconfiar), uma escrita que anda como um caracol à volta de si próprio, sebosa e rasteira.
São as novas prateleiras onde se arruma toda esta confusão de páginas rápidas e capas coloridas. Uma fase pobre da literatura… E é tanta a quantidade, que se torna difícil distinguir o que vale a pena ler!

Por isso… achei entusiasmante que alguém que escreve tão bem tivesse publicado um romance. Tudo isto por um livro ainda não lido…?
Ah... mas a fé é um grande conselheiro...


Um som para este post: Paradisium, do Requiem de Gabriel Fauré


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