segunda-feira, julho 03, 2006

Imagens e textos para ir descobrindo devagar. Eu vou demorar um pouco.


Frank Horvat

Le regret de Héraclite
Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca
aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.
GASPAR CAMERARIUS
en Deliciae Poetarum Borussiae, VII, 16


Jorge Luis Borges
(mais Borges em espanhol)


Henri Cartier-Bresson


"Descia eu uma tarde, numa leda paz de ideias e sensações, o Boulevard da Madalena, quando avistei, diante da Estação dos Ónibus, rondando no asfalto, num passo lento e felino, uma criatura seca, muito morena, quase tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes, e uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e rebelde, sob o chapéu velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A criatura passou - no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dois poços fundos não luzem mais negro e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de seda, lustroso e ensebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos que condenados, para um gabinete do Café Durand, safado e morno. Diante do espelho, a criatura, com a lentidão de um rito triste, tirou o chapéu e a romeira salpicada de vidrilhos. A seda puída do corpete esgarçava nos cotovelos agudos. E os seus cabelos eram imensos, de uma dureza e espessura de juba brava, em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sair quente do forno.
Com um riso trémulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
- E o nomezinho, hem?
Ela séria, quase grave:

- Madame Colombe, 16, Rua do Hélder, quarto andar, porta à esquerda.
E eu (miserável Zé Fernandes!) também me senti muito sério, trespassado por uma emoção grave, como se nos envolvesse, naquela alcova do Café, a majestade de um Sacramento. À porta, empurrada levemente, o criado avançou a face nédia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e Borgonha. E foi somente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsivamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a boca, todo a tremer, num beijo profundo e terrível, em que deixei a alma, entre saliva e gosto de pimentão! Depois, numa tipóia aberta, sob um bafo mole de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos Elísios. Em frente à grade do 202 mumurei, para a deslumbrar com o meu luxo: - "Moro ali, todo o ano!..." E como ao mirar o Palacete, debruçada, ela roçara a mata fulva do pêlo crespo pela minha barba - berrei desesperadamente ao cocheiro que galopasse para a Rua do Hélder, nº 16, quarto andar, porta à esquerda! "
Eça de Queiroz, in A Cidade e as Serras

(turismo em Tormes num site um pouco desactualizado)



foto: Man Ray (...)
Ele
Levanta-te! Anda, vem daí,

ó minha bela amada!11Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
12despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,

e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;

13*a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas floridas exalam perfume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
14Minha pomba, nas fendas do rochedo,
no escondido dos penhascos,
deixa-me ver o teu rosto,

deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
e o teu rosto, encantador.
15Agarrai-nos as raposas,
essas raposas pequenas
que devastam as vinhas,
as nossas vinhas já floridas.


Ela
16O meu amado é para mim e eu para ele,
ele é o pastor entre os lírios,
17*até que rebente o dia
e as sombras desapareçam.
Volta, meu amado, e sê como um gamo

ou um filhote de gazela
pelas quebradas dos montes.Ela
1No meu leito, toda a noite,
procurei aquele que o meu coração ama;
procurei-o e não o encontrei.
2*Vou levantar-me e dar voltas pela cidade:
pelas praças e pelas ruas, procurarei

aquele que o meu coração ama.
Procurei-o e não o encontrei.3*Encontraram-me os guardas
que fazem ronda pela cidade:
«Vistes aquele que o meu coração ama?»
4Mal me apartei deles, logo encontrei
aquele que o meu coração ama.

Abracei-o e não o largarei
até fazê-lo entrar na casa de minha mãe,

no quarto daquela que me gerou.5Eu vos conjuro, mulheres de Jerusalém,
pelas gazelas ou pelas corças do campo:

não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.


(...)

Cântico dos Cânticos, Salomão, Bíblia

(mais textos sagrados )



Ansel Adams
To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day,
To the last syllable of recorded time;
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life's but a walking shadow; a poor player,
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.
Shakespeare, Macbeth (V)
(um site que explica tudo sobre Machbeth)

(só o texto clássico)



Henri Cartier-Bresson

"Com os costumes andam os aforismos. Assim, eis que eles tomam um carácter mais criticador e vibrante, isto na linguagem de Karl Kraus, homem sagaz e ventríloquo de certas causas que a sociedade não confia à voz pública.
Ele diz, por exemplo: «As mulheres, no Oriente, têm maior liberdade. Podem ser amadas». Ou então: «A vida de família é um ataque à vida privada». Ou ainda: «A democracia divide os homens em trabalhadores e preguiçosos. Não está destinada para aqueles que não têm tempo para trabalhar». Tudo isto, como axioma, lembra Bernard Shaw, esse inglês azedo e endiabrado
cujo Manual do Revolucionário fez o encanto da nossa adolescência.
Todavia, o aforimo do homem de letras, se impressiona, quase nunca comove ninguém. O autêntico aforismo não é uma arte - é uma espécie de pastorícia cultural. Não está destinado a divertir nem a chocar as pessoas, mas, acima de tudo, propõe-se transmitir uma orientação. É uma lição, e não o pretexto para uma pirueta.
Os aforismos e paradoxos de Karl Kraus têm esse sabor irreverente que se diferencia da sabedoria, porque há algo de precipitado na sua confissão. Precisam de ser situados num estado de espírito, para serem aceites e compreendidos; enquanto que os verdadeiros aforismos quadram sempre à natureza das coisas e das pessoas, qualquer que seja a era em que se pronunciam e a civilização em que se repercutem.
(...) O aforismo deve ser a última colheita do uso da vida, e não uma impertinência ou uma afronta. Mas acontece que um coração novo encontra na rebelião uma força que se assemelha à sabedoria e que provém do desprendimento das coisas que ele não amou ainda; enquanto que aquele que muito conheceu o mundo, uma vez liberto, encontra-se, além de desamarrado das suas paixões, menos apressado no julgamento. O sábio é o homem que amou tanto a casa em festa como a casa em luto, e o fim e o princípio de todas as coisas. No momento da reflexão, ele pensa que o melhor da terra é não sabermos o futuro que nos está destinado; e, no dia alegre, goza de alegria. Esta condição da alegria não produzirá nunca o falso aforismo, que é apenas um excitante e um divertimento. Goza de alegria o que não encontra no mundo atractivo maior do que a virtude desconhecida.

Assim, lendo os aforismos de Karl Kraus, tomei-os como impróprios dum espírito profundo e sabedor. Como acontece decerto a muita gente inclinada à observação, ele conhece no seu íntimo aquele aforismo magistral: «Mais vale a sabedoria do que a força; mas a sabedoria do pobre é desprezada e as suas palavras não são escutadas». Esse sentimento de indigência que se apodera do indivíduo que pensa com justiça no meio duma turba indiferente, é o que
prevalece no repentista dos aforismos. Ele sabe que um improviso veemente e a pedra de escândalo atirada com habilidade podem tirá-lo da sombra e levá-lo a abrir os ouvidos fechados. É por isso que os momentos de maior convulsão da história aparecem prodigiosamente povoados de oradores e de pensadores. Eles são os sábios pobres, aquele que em época discreta e burocrática não chegariam a pronunciar uma só palavra ou não seriam escutados."

Agustina Bessa-Luís, in Alegria do Mundo


(biografia e livros de Agustina Bessa Luís)



Gérard Castello Lopes

AGUA, DÓNDE VAS?...
Agua, dónde vas?
Riyendo voy por el río
a las orillas del mar.
Mar, adónde vas?
Río arriba voy buscando
fuente donde descansar.
Chopo, y tú qué harás?
No quiero decirte nada.
Yo... temblar!
Qué deseo, qué no deseo,
por el río y por la mar!
(Cuatro pájaros sin rumbo
en el alto chopo están).
Federico Garcia Lorca
"Monday
This morning I told him my name, hoping it would interest him. But he did not care for it. It is strange. If he should tell me his name, I would care. I think it would be pleasanter in my ears than any other sound.
He talks very little. Perhaps it is because he is not bright, and is sensitive about it and wishes to conceal it. It is such a pity that he should feel so, for brightness is nothing; it is in the heart that the values lie. I wish I could make him understand that a loving good heart is riches, and riches enough, and that without it intellect is poverty.
Although he talks so little, he has quite a considerable vocabulary. This morning he used a surprisingly good word. He evidently recognized, him self, that it was a good one, for he worked it in twice afterward, casually. It was not good casual art, still it showed that he possesses a certain quality of perception. Without a doubt that seed can be made to grow, if cultivated.
Where did he get that word? I do not think I have ever used it.
No, he took no interest in my name. I tried to hide my disappointment, but I suppose I did not succeed. I went away and sat on the moss-bank with my feet in the water. It is where I go when I hunger for companionship, some one to look at, some one to talk to. (...)
When I look back, the Garden is a dream to me. It was beautiful, surpassingly beautiful, enchantingly beautiful; and now it is lost, and I shall not see it any more.
The Garden is lost, but I have found him, and am content. He loves me as well as he can; I love him with all the strength of my passionate nature, and this, I think, is proper to my youth and sex. If I ask myself why I love him, I find I do not know, and do not really much care to know; so I suppose that this kind of love is not a product of reasoning and statistics, like one's love for other reptiles and animals. I think that this must be so. I love certain birds because of their song; but I do not love Adam on account of his singing -- no, it is not that; the more he sings the more I do not get reconciled to it. Yet I ask him to sing, because I wish to learn to like everything he is interested in. I am sure I can learn because at first I could not stand it, but now I can. It sours the milk, but it doesn't matter; I can get used to that kind of milk.
It is not on account of his brightness that I love him -- no, it is not that. He is not to blame for his brightness, such as it is, for he did not make it himself; he is as God made him, and that is sufficient. There was a wise purpose in it, that I know. In time it will develop, though I think it will not be sudden; and besides, there is no hurry; he is well enough just as he is.
It is not on account of his gracious and considerate ways and his delicacy that I love him. No, he has lacks in these regards, but he is well enough just so, and is improving.
It is not on account of his industry that I love him -- no, it is not that. I think he has it in him, and I do not know why he conceals it from me. It is my only pain. Otherwise he is frank and open with me, now. I am sure he keeps nothing from me but this. It grieves me that he should have a secret from me, and sometimes it spoils my sleep, thinking of it, but I will put it out of my mind; it shall not trouble my happiness, which is otherwise full to overflowing.
It is not on account of his education that I love him -- no, it is not that. He is self-educated, and does really know a multitude of things, but they are not so.
It is not on account of his chivalry that I love him -- no, it is not that. He told on me, but I do not blame him; it is a peculiarity of sex, I think, and he did not make his sex. Of course I would not have told on him, I would have perished first; but that is a peculiarity of sex, too, and I do not take credit for it, for I did not make my sex.
Then why is it that I love him? Merely because he is masculine, I think.
At bottom he is good, and I love him for that, but I could love him without it. If he should beat me and abuse me, I should go on loving him. I know it. It is a matter of sex, I think. He is strong and handsome, and I love him for that, and I admire him and am proud of him, but I could love him without those qualities. If he were plain, I should love him; if he were a wreck, I should love him; and I would work for him, and slave over him, and pray for him, and watch by his bedside until I died.
Yes, I think I love him merely because he is mine and is masculine. There is no other reason, I suppose. And so I think it is as I first said: that this kind of love is not a product of reasonings and statistics. It just comes -- none knows whence -- and cannot explain itself. And doesn't need to.
It is what I think. But I am only a girl, and the first that has examined this matter, and it may turn out that in my ignorance and inexperience I have not got it right. "

Mark Twain, in Diaries of Eve

(texto completo dos diários de Eva e de Adão)





domingo, julho 02, 2006

Aprender.

Aprender na net é possível mas demorado. Valham-nos os atalhos: Assim Mesmo. Um blogue que ajuda a tratar bem da língua portuguesa.

Noutro ponto do... espectro, está um anúncio que leio no Público: "Massoterapia Intercorporal, ligue... " A intenção era sensual, mas as palavras inventadas acabaram por ficar inquietantes.