sábado, junho 24, 2006

Uma japonesa que ficou no cais e as loucuras que dela se contaram.

Maria Callas em Madama Butterfly, Puccini



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Para não sair já do Japão, recordo a Cio-Cio san, a Madama Butterfly, sonhando meia louca com o regresso do seu esposo americano.


Un bel dì, vedremo

levarsi un fil di fumo sull'estremo
confin del mare.
E poi la nave appare.
E poi la nave bianca.

Entra nel porto, romba il suo saluto.
Vedi? E venuto!
Io non gli scendo incontro. Io no. Mi metto

là sul ciglio del colle e aspetto, aspetto
gran tempo e non mi pesa
la lunga attesa.
E... uscito dalla folla cittadina

un uom, un picciol punto
s'avvia per la collina.

Chi sarà? chi sarà?
E come sarà giunto?
che dirà? che dirà?
Chiamerà Butterfly dalla lontana.
Io senza far risposta
me ne starò nascosta
un po' per celia, un po' per non morire
al primo incontro, ed egli alquanto in pena
chiamerà, chiamerà:
«Piccina mogliettina

olezzo di verbena»,

i nomi che mi dava al suo venire.

Tutto questo avverrà, te lo prometto.
Tienti la tua paura ~ io con sicura
fede l'aspetto.

É muito comovente esta ária. A grande dor de Butterfly é exposta com delicadeza, mascarada de esperança lírica e amorável, até culminar na tragédia:

un po' per non morire
al primo incontro,

(Butterfly canta que ficará escondida a ver Pinkerton subir a colina, um pouco por brincadeira, e um pouco para não morrer ao primeiro encontro).

Madama Butterfly de Puccini estreou com um rotundo fracasso em 1904. Foi revisto e cortado e voltou a estrear com o sucesso que se conhece. Dois libretistas trabalharam com o compositor nesta obra, adaptada de uma peça americana, por sua vez escrita a partir de uma novela de John Luther Long, um advogado da Pensilvânia. Para escrever o livro, John Long recorreu à experiência e memória da sua irmã que tinha acompanhado o marido missionário ao Japão. Segundo o escritor, a sua irmã teria conhecido o filho de Butterfly em Nagasaki. Pinkerton, o oficial da marinha da história, seria um mercador inglês e a jovem japonesa teria sobrevivido.

Outras versões dizem que Long leu Pierre Loti, pseudónimo literário de um ofical da marinha francesa. Loti escreveu em 1887 Madame Chrysantheme, uma pobre rapariga japonesa que é vendida como esposa temporária a um oficial ocidental. Quando ele parte, O-kiku-san (Crhysantheme) chora amargurada e suplica-lhe que não parta. Em vão. A jovem fica sozinha. Quando o oficial volta atrás, a procura de algo de que se esquecera na casa, encontra O-kiku
contando o dinheiro que ganhara e esperando já pelo próximo “marido”.


Com ou sem perfídia, n
a altura o oriente fascinava os americanos.
Em 1854, o comodoro da marinha Matthew Perry assinara um tratado que finalmente abria os portos do
Japão.
A abertura terá sido proveitosa para ambos – ávidos de novidade e exotismo, os ocidentais
começaram a consumir todo o tipo de artefactos que diligentemente eram produzidos para eles pelos japoneses.

Parece que a “loucura oriental” chegou a tal ponto que numa das Exposições Mundiais do Milénio realizada nos Estados Unidos (não sei bem se em St Louis ou Filadélfia) o próprio Pavilhão do Japão foi comprado.

Madama Butterfly e alguns outros libretos foram também as minhas primeiríssimas lições de italiano. Achei que foi um bom método.

(na última imagem, o Pavilhão do Japão no Centennial World Fair, Saint Louis, 1904.)


terça-feira, junho 20, 2006

Borges decifrando sílabas japonesas, com a ajuda de uma princesa virgem e de um poeta que fez um baralho de cartas.

Gueishas procurando os poemas do jogo de cartas Hyakunin-Isshu


Ah... já devia saber, pus-me a ler Borges a propósito dos tankas e entrei num labirinto.
Troquei umas palavras sobre tankas com o leitor pingue-pongue numa caixa de comentários - tratam-se de poesias tradicionais japonesas, semelhantes a
os haikus, mas com mais duas estrofes e ao todo 31 sílabas.
Os haikus, a "atitude haiku", o "momento haiku", traduzem um momento, uma experiência de percepção e unificação. O elemento sensorial é forte, tradicionalmente haveria sempre uma referência à natureza e à estação do ano.

Este é um dos mais emblemáticos:

"O velho lago ...
O ruído do salto
Da rã na água."

Bashô (1644-1694)

Os tankas têm mais dois versos e podem aliar a experiência sensorial ao universo emocional. Encontram-se, por exemplo, muitos tankas nostálgicos e de amor.

Num fórum, alguém escrevia assim a diferença entre haiku e tanka:

a haiku
here
a haiku there

here and there

a tanka here
a tanka there

here and there
take a leap if you dare
but take care--land well


Era um aparte jocoso mas que revela que a diferença não está apenas o tema ou nas sílabas a mais. Há uma relação formal entre cada verso que tem de ser respeitada. E não se pode cair no mero jogo de palavras.
O poema tem de ser uma revelação.
Tarefa para semi-deuses, já se sabia.


Bom, comecei com Borges. Eis um dos seus tankas:

Alto en la cumbre
todo el jardín es luna,

luna de oro.

Más precioso es el roce

de tu boca en la sombra.

(JLBorges, in Antología poética 1923-1977)



Continuando pelo labirinto, encontramos a Princesa Imperial Shikishi (ou Shokushi), sacedortisa do templo de Kamo e mais tarde freira budista. Morreu em 1201, solteira, como muitas princesas imperiais.
No seu caminho estudou composição com o mestre Fujiwara no Sh
unzei que não hesitou em incluí-la na sua antologia dos principais poetas imperiais.

Broken by the sound of the wind
That plays on the bamboo leaves
Near the window

A dream even shorter
Than my fleeting sleep.


(Princesa Shikishi, 1149-1201, trad.
Dr
Hisashi Nakamura, York, St John College)

na gravura, a princesa



O Mestre Shenzei tinha um filho, Fujiwara no Teika. Teika seguiu o seu pai e tornou-se um dos mais influentes poetas e divulgadores de poesia do seu tempo.
Além de escrever poesia, manteve um diário pelo qual se sabe que aos 19 anos conheceu a Princesa Shikishi e que tiveram uma relação estreita.
Houve muitas conjecturas acerca de uma ligação amor
osa entre os dois poetas, especulada em textos e até numa peça popular do sec.14.

The black hair through which
I used to run my hand for her;
Now strand by strand
It rises before my mind
When I lie down alone.

(Fujiwara no Teika, 1162-1241, trad. Dr Hisashi Nakamura, York, St John College)

imagem do poeta Teika recortado em papel
para uma representação
que encena o seu amor por Shikishi


Tal como o seu pai, Fujiwara no Teika também foi encarregue pelo Imperador de fazer uma compilação de poesia. Assim, recolheu e publicou a
Hyakunin-Isshu, que quer dizer "cem poems de cem poetas", os melhores do seu tempo.

Esta recolha manteve a sua importância ao longo do tempo e no século XV surgiu publicada sob a forma de baralho de cartas.


O Hyakunin-Isshu tornou-se então um popular e curioso jogo que se mantém até aos dias de hoje:
há dois tipos de cartas - as que têm a
figura dos poetas e a primeira parte da poesia (17 sílabas, 5-7-5) e outras que contêm a última parte (14 sílabas 7-7).
Um jogador lê a primeira parte, os participantes competem em procurar a carta com o final correspondente entre as outras no chão.

Deve ser fascinante e muito belo jogar aos cem poemas de cem poetas.


Carta de Shokushi Naishinno (Princesa Imperial Shikishi) no jogo de cartas com o Hyakunin-Isshu de Fujiwara no Teika.

terça-feira, junho 13, 2006

Maiores que o dia.


Hoje coincide o dia do nascimento de Fernando Pessoa (em 1888) com o da morte de Eugénio de Andrade e a de Álvaro Cunhal, ambos o ano passado.
Muito talento, curto o dia...



Creio que foi o sorriso,
0 sorriso foi quem abriu a
porta.

Era um sorriso com
muita luz

lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa,
ficar
nu dentro daquele
sorriso.
Correr, navegar, morrer
naquele sorriso.


Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra, 1988



Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar para ti?

Pousa a tua mão na minha

E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito

É que o
tens para mo dar.

Depois aperta-me a mão e vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram

Quando estás a olhar-me assim?


Fernando Pessoa, in Obra Poética, Poesias Coligidas, Inéditas 1919 -19
35










desenhos de Álvaro Cunhal.

segunda-feira, junho 12, 2006

Freud numa ilha grega.


lucian_freud_Reflection
Originally uploaded by _Slow_.
Skiathos é uma ilha próxima da península grega, pertence ao grupo das Hesperides e foi recomendada como sendo calma e familiar. Uns guias referem-na como uma espécie de Mikonos, azul e bela. E sim, compreendi como se pode amar a Grécia. O hotel era luminoso e grande, do quarto à praia iam meia dúzia de passos, contornando a piscina tomada pelos ingleses mais entradotes - estranho como não iam à beira mar.
O mar mediterrâneo é transparente, macio e silencioso. As ondas não quebram, não se ouve o constante rumor do Atlántico.

O restaurante do hotel, uma sala arejada e branca, oferecia-nos as delícias da comida grega. Das grandes e apetecíveis terrinas de vidro com iogurte a que se misturavam nozes e mel, às verdíssimas folhas de videira recheadas com arroz para acompanhar pratos que lembravam sabores árabes.
Era ali que se sentavam as nacionalidades. Britânicos com a pele cor de rosa do sol, um senhor alemão alto e cortês - cumprimentava â antiga, com um aceno de cabeça - , uma família grega cujo filho, um adolescente urbano de T-Shirt Nike um dia nos surpreendeu com uma dança tradicional grega, um jovem casal italiano com um rapazito que passava o dia a fazer judiarias ao cão do hotel.
Enfim, típicos personagens de histórias de Verão.

Entre os mais discretos estavam dois senhores ingleses. Um de estatura pequena e roupa justa, como um bailarino, mas com o corpo já arredondado. Cabelo curto, liso, castanho escuro, de olhar e movimentos eficientes e rápidos. Acompanhava um homem mais velho, sentando-se ao seu lado com a familiaridade de um amante ou agente. No entanto, sem muitos sorrisos ou proximidade.
O outro tinha uma aura natural. Magro, alto, de rosto anguloso e pouco simpático. A expressão "pergaminho amarrotado" fazia sentido com os sulcos e a cor do seu rosto. Os olhos eram pequenos e escuros, brilhavam e prescrutavam, embora nunca se detivessem em nós.
Há 9 anos que estou convencida que aquela personagem era o pintor Lucian Freud. Considerado uns dos maiores retratistas contemporâneos, Freud é pintor inquietante, principalmente nos seus nús que parecem demasiado vivos e quentes. Fez o retrato da raínha Isabel II e um tranquilo nú de Kate Moss grávida.
Anos depois do "encontro da Grécia", passei umas boas 3 ou 4 horas numa galeria com a uma retrospectiva dele. Ficámos bastante amigos.

domingo, junho 11, 2006


The morning glory also

turns out

not to be my friend




Matsuo Basho (Japão, 1644, 1694), traduzido por Robert Hass


sobre o poeta japonês
sobre o poeta americano




Mais uma carta. Esta de Robert Browning a Elizabeth Barret. Conheçaram-se em 1845 quando Elizabeth era já uma poetisa reconhecida que vivia em quase recolhimento, devido talvez a tuberculose.
Vieram a casar e foram viver para Itália. Elizabeth, que se julgava quase inválida, ou seria tratada como tal, recuperou e o casal teve uma filha.
O "namoro" entre Robert e Elizabeth está registado num livro de sonetos brilhante - Sonnets from the Portuguese. O "portuguese" refere-se a Camões que Elizabeth Browning admirava. Terá sido a modéstia da poetisa que a impediu de assinar o livro com o seu nome verdadeiro.
Existe bilingue: Sonetos Portugueses, Relógio de Água, tradução de Manuel Corrêa de Barros.
Acho Elizabeth Browning mais fácil de ler do que Robert.
No entanto quanto mais os leio, e quanto mais leio sobre eles - o seu trabalho, a sua vida, a sua visáo política, o amor que viveram - mais os acho admiráveis.
E, como os adolescentes, elejo-os meus heróis :)




January 10th, 1845, New Cross, Hatcham, Surrey

I love your verses with all my heart, dear Miss Barrett, -- and this is no off-hand complimentary letter that I shall write, --whatever else, no prompt matter-of-course recognition of your genius and there a graceful and natural end of the thing: since the day last week when I first read your poems, I quite laugh to remember how I have been turning again in my mind what I should be able to tell you of their effect upon me -- for in the first flush of delight I though I would this once get out of my habit of purely passive enjoyment, when I do really enjoy, and thoroughly justify my admiration -- perhaps even, as a loyal fellow-craftsman should, try and find fault and do you some little good to be proud of herafter! -- but nothing comes of it all -- so into me has it gone, and part of me has it become, this great living poetry of yours, not a flower of which but took root and grew ... oh, how different that is from lying to be dried and pressed flat and prized highly and put in a book with a proper account at bottom, and shut up and put away ... and the book called a 'Flora', besides! After all, I need not give up the thought of doing that, too, in time; because even now, talking with whoever is worthy, I can give reason for my faith in one and another excellence, the fresh strange music, the affluent language, the exquisite pathos and true new brave thought -- but in this addressing myself to you, your
own self, and for the first time, my feeling rises altogher. I do, as I say, love these Books with all my heart -- and I love you too: do you know I was once seeing you? Mr. Kenyon said to me one morning "would you like to see Miss Barrett?" -- then he went to announce me, -- then he returned ... you were too unwell -- and now it is years ago -- and I feel as at some untorward passage in my travels -- as if I had been close, so close, to some world's-wonder in chapel
on crypt, ... only a screen to push and I might have entered -- but there was some slight ... so it now seems ... slight and just-sufficient bar to admission, and the half-opened door shut, and I went home my thousands of miles, and the sight was never to be!

Well, these Poems were to be -- and this true thankful joy and pride with which I feel myself.

Yours ever faithfully
Robert Browning

terça-feira, junho 06, 2006

Encontrei.

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
(Não, Álvaro de Campos)

segunda-feira, junho 05, 2006

Sempre em italiano: adesso il samba.



Em 1976 a italianíssima Ornella Vanoni grava com Toquinho e Vinicius de Moraes.

(mais sobre a cantante)




Falar sozinho.


A preparar-me para mais um exame, rodeio-me de música e textos italianos. Recordei o meu primeiro poeta italiano, Cesare Pavese, do qual adoptei, digamos, uma citação preferida: "val la pena esser solo, per essere sempre più solo?" . É a grande contradição dos solitários.
Aliás, Pavese terá dito algo como: dai ao solitário uma companhia e ele não parará de falar.
Lúcido, e portanto atormentado, Pavese sabia que não há heroísmo na solidão, embora seja impossível separá-lo dessa sombra.
Tem outros poemas mais curtos e mais fáceis de ler (aqui, por exemplo), mas este é importante:

Traversare una strada per scappare di casa
lo fa solo un ragazzo, ma quest’uomo che gira
tutto il giorno le strade, non è più un ragazzo
e non scappa di casa.

Ci sono d’estate

pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese
sotto il sole che sta per calare, e quest’uomo, che giunge
per un viale d’inutili piante, si ferma.
Val la pena esser solo, per essere sempre più solo?
Solamente girarle, le piazze e le strade
sono vuote. Bisogna fermare una donna
e parlarle e deciderla a vivere insieme.
Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte
c’è lo sbronzo notturno che attacca discorsi
e racconta i progetti di tutta la vita.

Non è certo attendendo nella piazza deserta
che s’incontra qualcuno, ma chi gira le strade

si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,

anche andando per strada, la casa sarebbe

dove c’è quella donna e varrebbe la pena.

Nella notte la piazza ritorna deserta

e quest’uomo, che passa, non vede le case

tra le inutili luci, non leva più gli occhi:

sente solo il selciato, che han fatto altri uomini

dalle mani indurite, come sono le sue.

Non è giusto restare sulla piazza deserta.

Ci sarà certamente quella donna per strada

che, pregata, vorrebbe dar mano alla casa.

(Lavorare Stanca)