quinta-feira, abril 27, 2006

As coisas e as ideias.

Agradeço ao leitor pingue pongue, os comentários e o clip de um poeta que desconhecia: Wallace Stevens. Coincidência! Tal como John Updike nasceu em Reading, Pennsylvania. Foi advogado e respeitado Vice Presidente de uma companhia de Seguros, "it gives a man character as a poet to have this daily contact with a job", disse numa entrevista citada aqui. (lembrou-me Carlos Paredes, arquivista de radiografias no Hospital de S. José). Não sei se um poeta, ou um músico, deva ter outra profissão para... mas de alguma forma Wallace Stevens teve necessidade de justificar o seu caminho.
Outra curiosa citação deste poeta americano: "the poem must resist the intelligence almost successfully". Apetece-me já concordar em absoluto e ponto final. E apetece-me ter um pouco de tempo para puxar por este fio. Começando talvez por este ensaio.

Quanto ao poema no clip do comentário de ontem, está aqui transcrito. É mais um para ir desvendando devagar. O título é brilhante e hiptnótico.

Mais uma vez, grata ao pingue ponge.

Not Ideas about the Thing
but the Thing Itself

At the earliest ending of winter,
In March, a scrawny cry from outside
Seemed like a sound in his mind.

He knew that he heard it,
A bird's cry, at daylight or before,
In the early March wind.

The sun was rising at six,
No longer a battered panache above snow . . .
It would have been outside.

It was not from the vast ventriloquism
Of sleep's faded papier-mache . . .
The sun was coming from outside.

That scrawny cry-It was
A chorister whose c preceded the choir.
It was part of the colossal sun,

Surrounded by its choral rings,
Still far away. It was like
A new knowledge of reality.

Wallace Stevens

quarta-feira, abril 26, 2006

Poesia na mailbox.

Sem muito tempo para comentários, mas sem querer deixar passar o que importa. Ao mail chegaram 3 textos e 2 vozes para ler e ouvir com vagar.

A primeira é Ana Paula Inácio, que o Poetry International destacou esta semana. Fico sempre contente quando eles publicam um poeta português. Achei este poema muito belo e musical. A cadência dos últimos versos parece um tic-tac.

deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.

O segundo é "Seagulls" de John Updike no Podcast da Knopfpoetry. Um poeta a dizer o seu poema é sempre interessante.

A gull, up close,
looks surprisingly stuffed.
His fluffy chest seems filled
with an inexpensive taxidermist's material
rather lumpily inserted. The legs,
unbent, are childish crayon strokes--
too simple to be workable.
And even the feather-markings,
whose intricate symmetry is the usual glory of birds,
are in the gull slovenly,
as if God makes them too many
to make them very well.

Are they intelligent?
We imagine so, because they are ugly.
The sardonic one-eyed profile, slightly cross,
the narrow, ectomorphic head, badly combed,
the wide and nervous and well-muscled rump
all suggest deskwork: shipping rates
by day, Schopenhauer
by night, and endless coffee.

At that hour on the beach
when the flies begin biting in the renewed coolness
and the backsliding skin of the after-surf
reflects a pink shimmer before being blotted,
the gulls stand around in the dimpled sand
like those melancholy European crowds
that gather in cobbled public squares in the wake
of assassinations and invasions,
heads cocked to hear the latest radio reports.

It is also this hour when plump young couples
walk down to the water, bumping together, and st
and thigh-deep in the rhythmic glass.
Then they walk back toward the car,
tugging as if at a secret between them
but which neither quite knows--
walk capricious paths through the scattering gulls,
as in some mythologies
beautiful gods stroll unconcerned
among our mortal apprehensions.

John Updike on "Seagulls":My distinct memory is that I was pondering gulls while lying on Crane Beach in Ipswich when the first stanza came over me in a spasm of inspiration. Penless and paperless, I ran to the site of a recent beach fire and wrote in charcoal on a large piece of unburned driftwood. Then I cumbersomely carried my improvised tablet home. It must have been late in the beach season, and my final stanzas slow to ripen, for the poem's completion is dated early December.

Também do Podcast da mesma editora, um nome que desconhecia em absoluto: Anne Carson
Aqui ela lê o divertidíssimo Outwardly His Life Ran Smoothly

Comparative figures: 1784 Kant owned 55 books, Goethe 2300, Herder7700.

Windows: Kant had one bedroom window, which he kept shut at all times,
forestall insects. The windows of his study faced the garden, on the
the other side of
which was the city jail. In summer loud choral singing of the inmates
wafted in.
Kant asked that the singing be done sotto voce and with windows
closed. Kant had
friends at city hall and got his wish.

Tolstoy: Tolstoy thought that if Kant had not smoked so much tobacco
Critique of Pure Reason would have been written in language you could
stand (in fact he smoked one pipe at 5 AM).

Numbering: Kant never ate dinner alone, it exhausts the spirit. Dinner
guests, in
the opinion of the day, should not number more than the Muses nor less
than theGraces. Kant set six places.

Sensualism: Kant's favourite dinner was codfish.

Rule Your Nature: Kant breathed only through his nose.

segunda-feira, abril 24, 2006

Revolução. Poetas.

Que amor não me engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junta de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia.

José Afonso

Revolução. Imagem.

Nada excepto música.

Ontem fiquei suspensa quando voltei a ouvir este dueto do Messias de Haendel.

Fica em homenagem à Festa da Música onde não fui, à paz que não se alcança, à beleza dos duetos barrocos que mal conheço e ao mistério dos versículos que não entendo.

54 So when this corruptible shall have put on incorruption, and this mortal shall have put on immortality, then shall be brought to pass the saying that is written, Death is swallowed up in victory.
55 O death, where is thy sting? O grave, where is thy victory?
56 The sting of death is sin; and the strength of sin is the law.
(Bíblia em inglês porque é o que está a ser cantado, o snobismo não chega a tanto...)

quinta-feira, abril 20, 2006

Celebrando a voz: Stabat Mater

No Domingo foi o Dia Mundial da Voz, ouvi que a celebrações se prolongam.
Uma voz que canta ou fala bem é uma prenda deuses.

O Stabat Mater do Pergolesi é, por exemplo, a forma de eles nos deixarem espreitar um pouco o paraíso.

Medusas e alforrecas.

Esta semana um crítico escreveu sobre um crítico que tinha escrito um livro sobre um livro.
Ou: Eduardo Prado Coelho, João Pedro George e Margarida Rebelo Pinto.

Tudo já foi escrito na net e nos jornais. A mim, o que chamou a atenção e me fez olhar duas vezes para o artigo, foi a frase de EPC "Pode-se pôr em causa a obra de Margarida Rebelo Pinto (e eu tenho-o feito implacavelmente), mas não desta maneira indigente."
A pequena vaidade do "eu tenho-o feito implacavelmente" surpreendeu-me e fez-me sorrir.

Com outro sorriso, li também o post no "Memória Inventada" sobre o assunto. Vale a pena.

ah, e a minha vaidade obriga-me a dizer que e o título deste post é enganoso... é só porque a mesma coisa pode ter vários nomes.

quarta-feira, abril 19, 2006


Gosto muito de cartas. Do seu tom íntimo e ao mesmo tempo um pouco rebuscado, entre a conversa e a literatura.

to Percy Bysshe Shelley,
Ravenna, April 26, 1821

The child continues doing well, and the accounts are regular and favorable. It is gratifying to me that you and Mrs Shelley do not disapprove of the step which I have taken, which is merely temporary.
I am very sorry to hear what you say of Keats - is it actually true? I did not think criticism had been so killing. Though I differ from you essentially in your estimate of his performances, I so much abhor all unnecessary pain, that I would rather he had been seated on the highest peak of Parnassus than have perished in such a manner. Poor fellow! though with such inordinate self-love he would probably have not been very happy. I read the review of "Endymion" in the Quarterly. It was severe, - but surely not so severe as many reviews in that and other journals upon others.
I recollect the effect on me of the Edinburgh on my first poem; it was rage, and resistance, and redress - but not despondency nor despair. I grant that those are not amiable feelings; but, in this world of bustle and broil, and especially in the career of writing, a man should calculate upon his powers of resistance before he goes into the arena.

"Expect not life from pain nor danger free,
Nor deem the doom of man reversed for thee."

You know my opinion of that second-hand school of poetry. You also know my high opinion of your own poetry, - because it is of no school. I read Cenci - but, besides that I think the subject essentially undramatic, I am not an admirer of our old dramatists, as models. I deny that the English have hitherto had a drama at all. Your Cenci, however, was a work of power, and poetry. As to my drama, pray revenge yourself upon it, by being as free as I have been with yours.
I have not yet got your Prometheus, which I long to see. I have heard nothing of mine, and do not know if it is yet published. I have published a pamphlet on the Pope controversy, which you will not like. Had I known that Keats was dead - or that he was alive and so sensitive - I should have omitted some remarks upon his poetry, to which I was provoked by his attack upon Pope, and my disapprobation of his own style of writing.
You want me to undertake a great Poem - I have not the inclination nor the power. As I grow older, the indifference - not to life, for we love it by instinct - but to the stimuli of life, increases. Besides, this late failure of the Italians has latterly disappointed me for many reasons, - some public, some personal. My respects to Mrs S.
Yours ever.


P.S. Could not you and I contrive to meet this summer? Could not you take a run here alone?

terça-feira, abril 18, 2006

Afectos recorrentes: Jorge Luís Borges.

Os outros e os que salvam o mundo.Há uns dois anos numa exposição sobre Borges e Buenos Aires, ouvi a sua voz rouca e de sotaque molhado dizendo este poema:

Los justos

Un hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Fiquei comovida e grata por ouvir a sua voz. Por me ter lembrado (e relembrar
cada vez que leio este poema) das pessoas que nos salvam o mundo.
Por concordar que a bondade e a inteligência são o melhor do Homem.

Borges diz bem os seus poemas. Não tenho os justos, mas hoje fica o outro.

Borges Y Yo

Al otro, a Borges, es a quien le ocurren las cosas. Yo camino por Buenos Aires y me demoro, acaso ya mecanicamente, para mirar el arco de un zaguan y la puerta cancel; de Borges tengo noticias por el correo y veo su nombre en una terna de profesores o en un diccionario biografico. Me gustan los relojes de arena, los mapas, la tipografia del siglo XVIII, el sabor del cafe y la prosa de Stevenson; el otro comparte esas preferencias, pero de un modo vanidoso que las convierte en atributos de un actor. Seria exagerado afirmar que nuestra relacion es hostil; yo vivo, yo me dejo vivir, para que Borges pueda tramar su literatura y esa literatura me justifica. Nada me cuesta confesar que ha logrado ciertas paginas validas, pero esas paginas no me pueden salvar, quiza porque lo bueno ya no es de nadie, ni siquiera del otro, sino del lenguaje o la tradicion. Por lo demas, yo estoy destinado a perderme, definitivamente, y solo algun instante de me podra sobrevivir en el otro. Poco a poco voy cediendole todo, aunque me consta su perversa costumbre de falsear y magnificar. Spinoza entendio que todas las cosas quieren perseverar en su ser; la piedra eternamente quiere se peidra y el tigre un tigre. Yo he de quedar en Borges, no en mi (si es que alguien soy), pero me reconozco menos en sus libros que en muchos otros o que en el laborioso rasgueo de una guitarra. Hace anos yo trate de librarme de el y pase de las mitologias del arrabal a los juegos con el tiempo y con lo infinito, pero esos juegos son de Borges ahora y tendre que idear otras cosas. Asi me vida es una fuga y todo lo pierdo y todo es del olvido, o del otro.
No se cual de los dos escribe esta pagina.

domingo, abril 16, 2006

Theodore Dalrymple e a origem das boas maneiras.

O pai de Theodore acreditava que as boas maneiras eram a expressão da natural bondade e suave predisposição do Homem. A sua mãe tinha uma visão oposta: a cortesia seria o resultado de uma disciplina férrea, o bom coração despertaria em consequência.
Theodore Darlymple cresceu a prestar atenção à etiqueta - ainda que concordasse com o pai: a etiqueta não passa de um código de regras arbitrárias com as quais uma elite se distingue e mantém o seu domínio sobre o resto dos mortais.
Mas Theodore não é socialista
(O Sun de New Yourk descreve-o como um "Compassionate Conservative" ). Nem, como o nome parece indicar, um personagem de Óscar Wilde.
Thedore Dalrymple é
o pseudónimo de um médico britânico, psiquiatra em hospitais prisionais, que tem escrito artigos e livros, ao que parece de forma bastante desassombrada:
No artigo "Bad Counsel" critica o "therapism", uma teoria de aconselhamento psicológico que responsabiliza a sociedade pelos traumas ou desvios e, segundo o autor, desresponsabiliza o indivíduo de forma perigosa:
"According to therapism, everyone who has ever witnessed anything unpleasant, or experienced loss or humiliation (which is to say, the great majority of humanity), is at risk of subsequent mental illness unless he expresses his feelings volubly and often, preferably as directed by a mental health worker ( ... ) n fact, therapism is dehumanizing, since it sees people as passive products of their past, as inanimate objects are. Since therapists do not, because they cannot, see themselves in the same way, but rather as fully evolved beings endowed with free will, they are inevitably inclined to speak to the objects of their ministrations de haut en bas..."

"Romancing Opiates : Pharmacological Lies and the Addiction Bureaucracy", defende que a dependência dos opiáceos não é uma doença, mas uma resposta do indivíduo aos problemas pessoais e existenciais. Mais, diz que o crime provoca muito mais dependência do que as dependências provocam crime.

O "Our culture, whats left of it: the Mandarins and the Masses" é uma colecção de ensaios sobre a sua visão da sociedade inglesa, uma espécie de "dalrymplism" (um artigo crítico sobre o livro aqui).

Voltando à boas maneiras, concordo com o autor quando diz que um pouco de formalidade tornaria as nossas pequenas interacções mais fáceis e agradáveis.

Sou sensível aquilo que se chama "maneiras"... e discordo totalmente que o baixar da fasquia da boa educação seja sinal de informalidade.
Tal como diz o autor, não é uma questão de classe social. Ele observou que doentes seus, e muitas outras pessoas de que eu me lembro, sem escolaridade ou cultura livresca, se mostram polidas naturalmente. E sem serem servis! Que é totalmente diferente de boa educação.
É difícil falar hoje de boa educação sem cair nos formalismos ridículos dos livros de etiqueta.
E no entanto, é verdade que um pouco de cerimónia torna as relações entre as pessoas muito mais interessantes.

Palavras ditas duas vezes.

Há poucos dias transcrevi um poema dela, e hoje Anna Akhmatova entra no meu mail a propósito de uma nova biografia editada pela Alfred A. Knopf . Uma boa coincidência.
Impressiona-me sempre nela como escreve sobre a intensidade do amor e do sofrimento.

A propósito deste lançamento, os editores escreveram:
"She did not approve the Nietzschean idea of an elect beyond Good and Evil. For her, poetry was a mysterious gift which also had obligations and involved an imagination of human suffering. It was some time in the middle of December 1914 that [Alexander] Blok uttered his famous aphorism about Akhmatova's poetry, which has sometimes been used to
contrast her with Marina Tsvetaeva: "She writes verse as if she is standing in front of a man and one should write as if one stands before God."

There are the words that couldn’t be twice said,
He, who said once, spent out all his senses.
Only two things have never their end –
The heavens’ blue and the Creator’s mercy.
(Anna Akhmatova, There are words)

Música para um plano perfeito.

As bandas sonoras do Spike Lee são também importantes (parece que ele é o meu realizador preferido, longe disso... apenas o "closure" o Inside Man). Neste último filme há também uma banda sonora original composta por Terence Blanchard, músico de Jazz.
A música do genérico, essa sim, é um dos meus tipos preferidos: Bollywood remixed!

(esta não é a do filme)

Sábado à tarde: um plano perfeito.

Gosto do Spike Lee porque é um cineasta culto, com humor, sensibilidade e um... certo sentido estético. Dito assim, parece pretensioso, mas há planos nos seus filmes que valem por si, ou porque são um "quadro", no sentido tradicional, ou porque sozinhos parece que contam uma história. Ou ambos, já que os quadros contam histórias.
Como este plano do Inside Man, com o Clive Owen no centro do cofre.

Como em todos os filmes do Spike Lee há um pouco de política:

Madeleine (Jodie Foster):I'd call you a monster, but I have to go now and help bin Laden's nephew buy a co-op.
Arthur Case (Pr. banco, Christopher Plummer): [laughing] If that were true, you wouldn't be telling me.
Madeleine: [turning to leave] We're putting you down as a reference.

um pouco de "hard core":

Dalton Russel(assaltante, Clive Owen): Soon I'm gonna be sucking down pina coladas in a hot tub with six girls named Amber and Tiffany.
Keith Frazier (polícia, Denzel Washington): No, it's more like in the shower with two guys named Jamal and Jesus.. and that thing you're sucking on? It's not a pina colada!

e algumas anedotas:

Waiter: Excuse me Sir, do you have a reservation?
Keith Frazier: (walking past waiter] I have an appointment.
Waiter: May I take your hat?
Keith Frazier: No, get your own.

(diálogos do imdb.com)

sábado, abril 15, 2006

lobby ?

Porque é que de noite é proibido estacionar em frente de todas as garagens sob o pretexto de que entram carrros a qualquer hora, sabendo-se que a partir das 11 da noite é dificílimo arranjar uma aberta?

sexta-feira, abril 14, 2006

Andar a olhar para o chão.

andar a olhar para o ch�o
Na altura em João Soares era Presidente da Câmara, o Rossio foi, ou esteve para ser, repavimentdo. Quando lhe perguntaram se a obra, em pleno Verão, não iria prejudicar o turismo na Baixa, J.Soares respondeu algo como : "pelo contrário, podemos pòr passadiços para os turistas atravessarem a praça e poderem apreciar a arte dos calceteiros."

Gosto das nossas calçadas, espero que nunca as substituam pelas tristes e feias placas de cimento de muitas cidades europeias.

No clip, a rua de SJulião e o Lg. do Município. Além do típico paralelipípedo, também lages de vários tons. Bom... já que se anda a olhar para o chão, ao menos haja alguma coisa de jeito para ver.

quinta-feira, abril 13, 2006

Esta noite de lua cheia

Está uma lua cheia assustadora. Apanhou-me numa esquina, depois de ter andado desaustinada pela cidade e de ter parado em 3 salas de teatro sem ter entrado em nenhuma: 1ª esgotada, 2ª peça demasiado sombria, 3ª ainda não tinha estreado... Pena... hoje era a emoção do teatro que me apetecia. De repente esta lua - não bem a da foto, esta é de agora mesmo - quando a vi era mais terrível, muito pálida e coberta por uns fiapos de nevoeiro alto.
Tão bela, tão...íntegra e violenta que parece que desencadeia uma avalanche de associações, de lembranças, de medos, de amores.

A lua é um tema recorrente na poesia chinesa, já li e transcrevi muitos poemas lunares. Hoje procurei de novo.
Desta vez, o google trouxe um site finlandês curioso e sem pretensões que nos convida: "Make a poem" - um programa simples, espaços brancos que se preenchem, respostas a perguntas e... um poema!
Grande parte deles, como o meu abaixo, ficam um pouco coxos de artigos e sentido... mais ou menos legíveis, é um exercício para sorrir.

moon moon moon

omen arms
clear spring
passion blows slides
south hope infinite
bird gaze,
monday man...

in love
wave home
whisper morning garden - slipery thunder eyes
peaceful lover!

ah! ia chamar a este post Google Moon, mas eles chegaram primeiro.

terça-feira, abril 11, 2006

Steichen e Magritte

Há pouco tempo a
foto "The Pond-Moonlight" de Steichen atingiu um record para o género num leilão da Sotheby's. Quando a vi, lembrou-me outra o "L'empire des Lumières" que eu adorava e perante o qual fiquei a embasbacar em Bruxelas.

O que é esta a emoção? Esta, de ver ao vivo um quadro que se ama, mas também a excitação de conhecer novas obras. É estranho, de uma boa forma. E é, seguramente, um privilégio.

Quanto a estas duas... ambas falam de luz, ambas podem ser vistas de dia ou de noite. Esse fascínio divido agora com o
"The Pond -Moonlight".
São perfeitas para pôr lado a lado: a fotografia parece um quadro, o quadro parece a foto.
E se
trocassem de título, tudo continuava perfeito.

por falar em emigação

segunda-feira, abril 10, 2006

Oleksandr e as três linhas sobre os imigrantes em Portugal.

- Alexander ?
Sim, só podia ser o ucraniano com hora marcada. Louro, traços secos, sem desperdiçar sorrisos.
Engenheiro, naturalmente. Metalúrgico, especializado em construir os grandes fornos do aço e do ferro do norte da Ucrânia. Saiu há 8 anos. Não, com o Iuchenko o país não está melhor, aliás ele e toda a sua região preferem o Ianukovitch.
- Cuidado com o degrau...
Sim... desde que trabalhava nas obras tinha sempre cuidado por onde andava.
A mulher era Engenheira, também, mas a área dela ficou sem trabalho depois da queda da União Soviética. Voltou a estudar, Economista. Esteve cá uns meses, depois voltou, os filhos.
Alexander-Oleksandr entrou em mais um escritório de mais uma empresa portuguesa. Desta vez, para chamar a atenção para a forma como os portugueses tratam os imigrantes, os ucranianos. Na linha de texto que alguém escreveu para ele ler, havia um nome que não existe na Ucrânia. Mas como um trabalho que há a ser feito, ele leu, sem cinismo nem ironia. O resultado não foi brilhante? Paciência, ele fez o seu melhor, correcto, atento. Nada a dizer.

Segundo números recentes, os ucranianos são a maior comunidade estrangeira em Portugal. Não sei mais sobre a Ucrãnia por causa disso... Hoje anunciam oficialmente os resultados das eleições de Março, um azar mediático com o volte-face dos resultados italianos...

Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu.
(Clarice Lispector)

Not under foreign skies protection
Or saving wings of alien birth –
I was then there – with whole my nation –
There, where my nation, alas! was.

(Anna Akhmatova)

A brilhante poesia ucraniana para fechar o dia em que voltei a ler as
três linhas que alguém escreveu sobre os imigrantes em Portugal.

A primeira linha dizia: "Ucraniano"; a segunda linha dizia: "Brasileira",
a terceira linha dizia... a sério...? sim, estava a ler bem...
a terceira linha que alguém escreveu sobre os imigrantes
em Portugal dizia: "Preto".

domingo, abril 09, 2006

Flores de hoje na Gulbenkian


Alguém diz:
"Aqui antigamente houve roseiras" -

Então as horas
Afastam-se estrangeiras,
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Hoje estava Primavera na Gulbenkian. E eu não sei porque aquele parque me faz lembrar a Sophia de M. Breyner A., mas é assim. "Como se o tempo fosse feito de demoras"... não sei se entendo, fico a pensar.

sábado, abril 08, 2006

Viver sem amanhã

A não ser por uma tragédia pessoal, é muito irritante ver quem defenda viver assim. Desde o "Clube dos Poetas Mortos" e o seu "carpe diem" que algumas pessoas se gabam... Viver intensamente, sem pensar no amanhã... na verdade não passam de pobres de espírito, e como não desenvolveram a inteligência e a sensibilidade para terem horizontes, não admira que não vejam o amanhã.
O "carpe diem" não tem culpa nenhuma, mas é abusado de forma muito mesquinha.
Aproveitar o tempo, viver com paixão significa viver porque há amanhá, porque amanhã espero ser um pouco mais do que hoje. Não se pode viver sem esperanças, nem expectativas.

quinta-feira, abril 06, 2006

lounge again

e finalmente as músicas que eu escolho e não apenas as que estão disponíveis na net


Cantiga, Partindo-se

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos, por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
Tão fora de esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

(João Roiz de Castelo Branco, sec XV)

Este exemplar da poesia palaciana, tão redondo, tão elegante, repete palavras e sílabas como ecos. Mas, assim palavroso e tudo, é o epítome de triste.
Estará gasto de tão repetido?

quarta-feira, abril 05, 2006

quarta feira cumprida

hum... não me parece que o dia tenha sido grande coisa quando sobraram só estas palermices...
"... e já a seguir a análise do jogo!" - TV 11 da manhã, o jogo a analisar só começou perto das 20h.
"... durante a próxima semana, operação Páscoa e reforço do policiamento (...) assim como do Escola Segura" - Rádio 19h, patrulhas "escola segura"... nas férias?

valham-nos os cartoons do new yorker

terça-feira, abril 04, 2006

O que se declara.

Hoje enviei um soneto de Camões com prenda de despedida a um amigo que admiro e escreve aqui e aqui. Um transeunte chamou-lhe uma declaração. O meu amigo que me conhece um pouco deve imaginar que eu sorri muito e corei. Mas sim... uma declaração, claro, como as que com o tempo e muito devagar se aprendem a fazer às pessoas de quem gostamos. E que deixam que nós gostemos delas. São estes os amigos.

e num dia dos idos de Março, a outra margem era

segunda-feira, abril 03, 2006

A vida sem televisão

ou o que descobri neste serão

A admiração divide-se entre quem lê o poema e quem o escreveu. No link, Joan Didion lendo um poema de Gerard Manley Hopkins
Pode ouvir-se aqui e ler-se abaixo:

I WAKE and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hoürs we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God’s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.

Joan Didion, escritora, jornalista, colaboradora do New York Review of Books, é citada tanto pela sua análise da política e cultura americana, como pela forma como atravessou uma trágica história pessoal. Quanto a Gerard Hopkins, é um curioso poeta inglês que ao tornar-se jesuíta queima grande parte dos seus versos. Volta, no entanto, a escrever, facto que lhe causa um tormento interno - não se considera nem bom poeta, nem bom servo de Deus.

domingo, abril 02, 2006

onde se pertence?

Uma casa nova pode ou não tornar-se um novo lugar onde pertencemos. Até passar a sensação de férias da pós-mudança, a expectativa mantém-se. Onde se pertence e o que nos pertence pode bem resumir muitas perguntas que nos deixam expectantes.

há pouco mais de um mês, quem morava neste quarto era o sol da manhã

sábado, abril 01, 2006

Abdul Varetti, escritor falhado

Abdul Varetti, siciliano, sec. XIII, polígamo, escritor falhado.

"Duplo e mito, é o reconhecimento que fiz e que personifiquei de um escritor que considerei falhado." Álvaro Lapa
"As profecias de Abdul Varetti" é um dos trabalhos que Serralves trouxe à Assembleia da República na exposilção "O poder da arte". A peça de Lapa é constituída por painéis em lona de cor crua, presos a simples estruturas de ferro, bordados com profecias.
Há algumas fotos neste outro blog.

E estas são as profecias:
“O amor e as outras actividades de relação serão públicas e tribais. Eles serão reis e elas rainhas"
"A amizade será livre, o amor não"
"O sono e a morte serão mais uma vez equiparados. O Homem aprenderá a morrer"
"Um anarquismo integral, de produção natural, será a forma que se antevê, irá ser escolhida pela humaniade emancipada."
"As religiões serão desconsideradas. A experiência mística será reconhecida e um facto comunicável"
"Os deuses adormecidos vão recuperar a atenção do homem livre. A curiosidade e a crença florirão"
"Sendo o 'Exterior à imagem do 'Interior' a vida será uma obra de arte. As obras de arte do passado serão tidas por curiosidade de arcaicas. Algumas serão conhecidas e estudadas."

É isto que nos deixa Abdul Varetti, ou "a minha alma do outro mundo" de Álvaro Lapa.

Das biografias da net, esta pareceu a mais interessante. Resumo:
Álvaro Lapa nasceu em Évora em 1939, e morreu no Porto em 10 de Fevereiro de 2006. Estudou Filosofia, foi professor de Estética nas Belas Artes do Porto.

Começou a pintar em 1962, por “uma questão de anti-invocação”. “O problema de começar a pintar era vencer a inibição diante do Charrua. Mas como eu já tinha sido inibido de escrever pelo Vergílio Ferreira não podia ser mais inibido... comecei a pintar porque o Bravo começou a pintar... ele pintou uma coisa a Giacometti, (não sei se era se não, para mim passou muito bem), eu percebi que era fácil. A ideia é que era preciso fazer qualquer coisa, qualquer coisa que eu gostasse”.

Primeira exposição em 1964, na Galeria 111. "Reunião" (que inaugurou em Lisboa em Outubro de 2005 e no Porto em Janeiro de 2006) foi a sua última exposição.

Publicou cinco livros, "Raso Como O Chão" (Estampa, 1977), "Porque Morreu Eanes" (Estampa, 1978), "Barulheira", (1982, &Etc) "Balança", (Frenesi,1985) e "Sequência Narrativas Completas" (Assírio e Alvim, 1994) e ajudou a publicar a obra poética do seu amigo António Gancho.