quinta-feira, fevereiro 09, 2006







Compro.

As nossas noites já foram escritas pelos poetas.


Antes de se tornar "relativamente popular" em Portugal, Fernando Pessoa era estudado com entusiasmo no Brasil.
Nova Aguilar foi a editora que em 1960 publicou, em obra única, 8 volumes que a portuguesa Ática tinha editado. Parece bastante respeitável, a editora.
À propos dos autores que vejo no seu catálogo, lembrei-me da Maria José me ter chamado a atenção para esta coincidência:

Come night, come Romeo, come thou day in night,
For thou wilt lie upon the wings of night
Whiter than new snow on a raven's back,
Come gentle night, come, loving black-browed night,
Give me my Romeo; and when he shall die
Take him and cut him into little stars,
And he will make the face of heaven so fine
That all the world will be in love with night,
And pay no worship to the garish sun ( ... )


(Shakespeare, Romeo and Juliet, Act 3, Sc 2)



Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
Com as estrelas lentejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem ( ... )


(Álvaro de Campos, Excertos de duas Odes)


Formado em Glasgow e tudo, naturalmente o Engº Álvaro de Campos teria lido Shakespeare. Não me admira que seja mote ou homenagem.
A intensidade do simples "come night" onde Julieta encerra o seu infinito amor por Romeu é aberta, exposta e desdobrada na Ode.
É tão bem escrito, no ritmo, na expressividade do vocabulário, na correcção do português... dos textos mais impressionantes que conheço.

E se há santa padroeira que valha a pena, também lá está: a "nossa senhora das coisas impossíveis que procuramos em vão"...


quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Pessoa nas mãos do povo

A partir de 31 de Janeiro de 2006 a obra de Fernando Pessoa caíu em domínio público (para este cálculo conta a data da morte do poeta, embora ninguém tenha feito as contas à data em que morreram Álvaro de Campos, Caeiro, R.Reis, Search, Mora... )
Conheço há muitos anos uma edição das obras completas de Fernando Pessoa em papel bíblia, de uma editora brasileira. Claro que a noção de "obras completas" é bastante imprecisa, mas durante anos me espantei porque saiam tantos livros dispersos de Pessoa, se ali já estava tudo.
Hoje os brasileiros tomam de novo a dianteira e disponibilizam
online os textos do poeta português - dominiopublico.gov.br.

Foi dos Poemas Inconjuntos que tirei este, do Alberto Caeiro (que, aliás, segundo Fernando Pessoa, não escrevia muito bem português)


A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Eu sei, mas não te digo.


Há muitos anos, uma amiga dizia: "se eu tiver uma vela acesa e tu uma apagada e com a minha acender a tua, tu ficas com luz e eu não perco nada". Pueril, mas faz sentido.
O conhecimento é poder - se não me engano, Levy Strauss escreveu sobre o investigador que, tendo o poder da escrita, era reverenciado pela tribo.

Há muitos anos achei admirável que o MIT oferecesse cursos online. O projecto prevê que em 2007 todos os cursos do MIT disponíveis na net. Existe, até, uma boa fatia dos cursos em português.

A Universidade de Berkeley, da California, tem também um projecto interessante online:
webcast.berkeley. Vários cursos ou conferências especiais podem ser descarregados e vistos - o download é surpreendentemente rápido.
Enquanto escrevo ouço o David Lynch falando de consciência e meditação. O realizador não preparou conferência, confessa, mas responde às respostas dos alunos com uma fluência, entusiasmo e informalidade muito cativantes.

sábado, fevereiro 04, 2006

Black eyed peas sem tempero


Víngaria entre nós uma banda com um nome tão prosaico como "Feijão Frade"? A propóstio de ter encontrado uma versão a-capella do "My Humps".

Acho sempre piada a este material nú e crú.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Na boca do lobo

Nenia del miele

mentre il miele rodeva il tuono
il miele aprì le sue labbra
di tenera ora
io ero il lupo e la chiara

stagione del lampo
io ero il cupo suono
che ringhia lo scampo

mentre il miele rodeva


Alberto Cappi (n.1940)

Entre os colegas do Instituto Italiano desejámos uns aos outros idiomáticos votos de boa sorte para o exame: "In bocca al lupo!", não me lembro se dei a resposta da praxe, "Crepi il lupo", morra o lobo... Não, não devo ter dado. Humm... deve ter sido por isso que desta vez as suas presas me arranharam um pouco.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Lá longe, na caixa mágica.


Sem televisão há alguns anos, parte da cultura do pequeno ecrã passa-me ao lado. Como este Jon Stewart que vai agora apresentar os Óscares. Recentemente mostraram-me o seu "Daily News", o popularíssimo programa de "fake news". Pode ser visto na net (com IE funciona bem) e é delirante e surpreendente.
Um dos títulos em destaque: "
Daily Show: Headlines - Age of Misinformation - Bush has no doubt in his mind the wiretaps are legal. In fact, there's no doubt in his mind, period."
Será que acreditaria se lhe dissessem que temos um futuro PR- ex PM que disse o mesmo... mas a sério...?
Temos tanta sede de humor e independência que não admira que Jon Stewart seja um culto.