terça-feira, janeiro 31, 2006

Quando dizemos o mesmo

nem sempre estamos a falar do mesmo.

A Dona T. diz que na sua aldeia as festas e procissões são mais pagãs porque é para as pessoas irem pagar promessas.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

mhmm, mais um pouco de Mozart...



António Cartaxo disse na Antena 2 que Mozart transformou em música todos as criações e momentos do mundo. Os riachos, o vento, a chuva, as cidades, um mulher que dança, um homem que ri, certamente até a neve em Lisboa, tudo, tudo isto tem uma música, ou uma sonoridade. Graças a Mozart.
E enquanto continuam as dúvidas sobre se um certo crânio lhe pertence ou não, li como certo que ouvir uma das suas composições desenvolvia a capacidade de racciocínio! Ah... tivesse eu ouvido e agora lembrava-me de qual !
Celebram-se os 250 do seu nascimento e ouço que Salzburg está insuportável de souvenirs. Em todo o caso, é uma data que não convém deixar em branco.

para ouvir:
Mozart, Le Nozze di Figaro, Atto III, scena VIII (Elena Mirtova)

"al favor della notte... oh cielo, a quale
umil stato fatale io son ridotta
da un consorte crudel, che dopo avermi
con un misto inaudito
d'infedeltà, di gelosia, di sdegni,
prima amata, indi offesa, e alfin tradita,
fammi or cercar da una mia serva aita!
Dove sono i bei momenti
di dolcezza e di piacer,
dove andaro i giuramenti
di quel labbro menzogner?
Perché mai se in pianti e in pene
per me tutto si cangiò,
la memoria di quel bene
dal mio sen non trapassò?
Ah! Se almen la mia costanza
nel languire amando ognor,
mi portasse una speranza
di cangiar l'ingrato cor. "




segunda-feira, janeiro 16, 2006

O amor é uma escultura.




I am a sculptor, a molder of form.

In every moment I shape an idol.

But then, in front of you, I melt them down

I can rouse a hundred forms

and fill them with spirit,

but when I look into your face,

I want to throw them in the fire.

My souls spills into yours and is blended.

Because my soul has absorbed your fragrance,

I cherish it.

Every drop of blood I spill

informs the earth,

I merge with my Beloved

when I participate in love.

In this house of mud and water,

my heart has fallen to ruins.

Enter this house, my Love, or let me leave.

Mevlana Rumi (1207-1273)




música de hoje: uma história simples.

domingo, janeiro 15, 2006

O presidente, a pintora e a cama da rainha

Ao Sábado, a visita ao Museu da Presidência inclui um passeio por algumas salas do Palácio de Belém. Entre elas, o Gabinete do Presidente, não o de trabalho, mas o público, digamos.

Obedecendo ao gosto de Jorge Sampaio, as paredes ostentam quadros de Graça Morais, João Vieira e Paula Rego, pintora que está a finalizar o retrato oficial do actual Presidente da República (e ainda bem, já que dos pós-revolução, o único que vale realmente a pena é o Mário Soares de Júlio Pomar).

Mas este Gabinete Oficial, não sendo uma das salas mais belas visitada, tem uma curiosidade: outrora foi o quarto de D. Amélia de Orleães. Quando veio para o Palácio, esperava-a neste quarto um leito tão finamente ornamentado que a rainha imediatamente se apaixonou por ele. Tanto, que nunca mais o quis abandonar. Quando foi para o exílio, não deixou de levar a cama que momentos tão felizes lhe dava.


Love, Paula Rego

Não era eu...

A propósito de pronunciar bem ou mal certas palavras, há uma história que adoro e me não me canso de contar – talvez o mesmo não se possa dizer de quem já a ouviu repetidamente :)

Uma amiga, terapeuta da fala, recebeu um paciente com um defeito comum de linguagem, cujo o nome técnico me escapa, mas que o fazia carregar nos “r”. O senhor levou algum trabalho de casa: exercícios que em relativamente pouco tempo fariam bastante diferença na sua dicção. Na data combinada, o paciente voltou ao consultório. Depois dos cumprimentos iniciais, foi claro para minha amiga que não havia grande evolução. Preocupada, perguntou ao paciente:
- Então Sr. X…? Tem feitos os exercícios…? Encontrou alguma dificuldade… ?
- Sabe doutora... ? - foi respondendo o paciente - eu até comecei a fazer… e já quase não notava nada... mas depois desisti. Sabe…? Não era eu...

Portugal. Um país com “r”.

Nestes primeiros dias do ano, um dos artigos mais fascinantes que li, se não o que mais me fascinou, foi o que transcrevo abaixo do escritor/tradutor Frederico Lourenço.

Faz parte de uma série que o Público tem vindo a publicar nestes dias de campanha eleitoral e a que chamou “O discurso que nunca foi feito” – artigos pedidos a 14 intelectuais que moram fora do circuito dos media.

No seu comentário sobre a campanha, Frederico Lourenço escolhe… não um tema, não uma palavra, mas uma letra. A letra “r”. O modo como os candidatos pronunciam a letra “r”: Os candidatos de esquerda “à portuguesa”, de forma sonora e clara, e Cavaco Silva, de forma “gutural”, “à francesa” (embora me pareça que ele tenha mesmo problemas de dicção).

O autor defende que a “snobeira” urbana e as novelas brasileiras nos afastaram da pronúncia correcta das palavras com “r”.

O falar português, como o escrever bom português, parece por vezes uma excentricidade, uma vaidade presunçosa e “intelectual”. Assim, alegrei-me ao ver o autor que admiro a expor esta reflexão num jornal para o grande público (hum.. não consegui evitar a redundância…) Claro, se o grande público o leu é uma questão inteiramente diferente.

Há uma “fraqueza” que nos leva a imitar os estrangeiros, os ilustres, as pessoas “de bem”. É a vaidade bacoca dos citadinos afluentes, tão iliterados como a classe média e baixa.
E vamos de iliteracia em iliteracia… na língua, na civilidade, na cultura, nos valores.

Num instante, corremos o risco de acreditar que o egoísmo, a arrogância e a intolerância são o nosso alfabeto.


“O som de Portugal

Manuel Alegre, Mário Soares, Jerónimo de Sousa e Francisco Louça têm outra coisa em comum, além do facto de serem de esquerda. Algo de muito sonoro e que os distingue de Aníbal Cavaco Silva. Trata-se do som da letra “r” em início de palavra (“revolução”), com grafia dupla no interior de um vocábulo (“terra”) ou em sequências como “honra” e “guelra”. O ponto de articulação do “r” dos candidatos de esquerda é apical: a ponta da língua rola contra o palato duro, um pouco atrás daquilo a que Homero chamou “a barreira dos dentes”. No caso de Cavaco Silva, o “r” é articulado na garganta: é o som gutural de quem anuncia a intenção de escarrar. Entrou na nossa fonética por via do estrangeirismo: primeiro conquistou a classe alta por ser o “r” francês; a pouco e pouco, a classe média foi imitando; por fim, contaminou a classe proletária por ser o “r” das telenovelas brasileiras. Hoje, o “r” de Cavaco Silva é o mais ouvido do nosso país.

Apesar do apreço que o Prof. Cavaco me merece, é pena. Pois não há a menor dúvida de que o “r” dos candidatos de esquerda é o verdadeiro “r” de Portugal. É o mesmo “r” do castelhano (e do italiano, já agora). Em Espanha, as pessoas que emitem o “r” gutural (por defeito de fala ou afectação) tornam-se ridículas. No som da letra “r”, que os nossos vizinhos hispânicos rolam extravagantemente, ouvidos todo os eu orgulho em serem espanhóis; ao passo que nós, tristes portugueses, fomos caindo na snobeira auto-amarfanhante de pensarmos que o “r” francês e brasileiro é mais urbano do que o atávico “r” ibérico, que soa rústico a ouvidos arrivistas.

No filme de João César Monteiro sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, dá-se um fenómeno curioso. A voz de Sophia tinha compreensivelmente todos os tiques de prosódia e articulação fonética da classe social a que pertencia. No filme, quando ela fala em registo informal, articula o “r” francês, próprio de uma senhora de bem que não quer empregar o mesmo “r” das criadas. No entanto, quando Sophia declama os seus poemas, o “r” gutural de Cavaco Silva é cuidadosamente substituído pelo “r” apical de Manuel Alegre.

O que terá levado Sophia a mudar de “r” conforme assumida duma das suas duas personagens, a senhora fina e a poetisa? Só pode ter sido a consciência de que, apesar de menos chique, o “r” apical é intrinsecamente mais eufónico e mais português do que o “r” gutural. Realidade que todos os cantores de fado sabem. E muitos actores. Mas até no teatro o “r” português está em vias de extinção. Na famosa encenação de Ricardo Pais da Castro de António Ferreira, a interpretação de Maria de Medeiros dividiu opiniões. As críticas foram injustas, pois a Maria recriou uma Inês de Castro deslumbrante. Mas dei razão a Cremilde Rosado Fernandes, que, com os seus ouvidos infalíveis de cravista, me disse “que pena a Maria de Mederiso ter aqueles horríveis ‘r’s guturais”.

O efeito normalizador da televisão vai levar, mais cedo ou mais tarde, a que o autêntico “r” português (o “r” de Gil Vicente, Camões e Camilo) desapareça para sempre. Duvido que haja menores de vinte anos que o pronunciem ainda O “r” hediondo do arrivismo vai vencer. Agradeço, portanto, a portugueses tão diferentes como Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Silva Melo, Manuel Maria Carrilho, Luís Miguel Cintra e muito especialmente aos quatro candidatos presidenciais de esquerda o facto de manterem ainda viva a ponúncia castiça do “r”, que é, juntamente com o marulhar das ondas e o dedilhar da guitarra portuguesa, aquele som que dá verdade a Portugal.”

Frederico Lourenço, Público, 7 Janeiro 2006

sábado, janeiro 14, 2006

Bom dia.



Comecei o ano a olhar para o céu, para o fogo de artifício que chovia à beira do Tejo. Não há como explicar a excitação miudinha… igual desde a infância.

O fogo de artifício, os foguetes, é um êxito antigo e universal…

É fascinante, o fogo, como a violência dos estrondos, a leve ameaça de perigo… há qualquer coisa de louco e generoso em ter dominado a química para oferecer ao mundo estas lágrimas em festa, brilhantes e coloridas.

E, embora eu continue a sorrir, há pessoas que dedicam aos foguetes o melhor dos seu saber e esforços. Destaco o Abaixo Assinado Contra a Proibição dos Foguetes e o Simpósio Anual do Fogo de Artifício.

Finalmente… em japonês fogo de artifício diz-se Hana Bi, nome do filme que não vi mas desejo muito do meu muito admirado Kitano.


... e uma banda sonora para ficar a olhar para o céu no novo ano