terça-feira, junho 20, 2006

Borges decifrando sílabas japonesas, com a ajuda de uma princesa virgem e de um poeta que fez um baralho de cartas.

Gueishas procurando os poemas do jogo de cartas Hyakunin-Isshu


Ah... já devia saber, pus-me a ler Borges a propósito dos tankas e entrei num labirinto.
Troquei umas palavras sobre tankas com o leitor pingue-pongue numa caixa de comentários - tratam-se de poesias tradicionais japonesas, semelhantes a
os haikus, mas com mais duas estrofes e ao todo 31 sílabas.
Os haikus, a "atitude haiku", o "momento haiku", traduzem um momento, uma experiência de percepção e unificação. O elemento sensorial é forte, tradicionalmente haveria sempre uma referência à natureza e à estação do ano.

Este é um dos mais emblemáticos:

"O velho lago ...
O ruído do salto
Da rã na água."

Bashô (1644-1694)

Os tankas têm mais dois versos e podem aliar a experiência sensorial ao universo emocional. Encontram-se, por exemplo, muitos tankas nostálgicos e de amor.

Num fórum, alguém escrevia assim a diferença entre haiku e tanka:

a haiku
here
a haiku there

here and there

a tanka here
a tanka there

here and there
take a leap if you dare
but take care--land well


Era um aparte jocoso mas que revela que a diferença não está apenas o tema ou nas sílabas a mais. Há uma relação formal entre cada verso que tem de ser respeitada. E não se pode cair no mero jogo de palavras.
O poema tem de ser uma revelação.
Tarefa para semi-deuses, já se sabia.


Bom, comecei com Borges. Eis um dos seus tankas:

Alto en la cumbre
todo el jardín es luna,

luna de oro.

Más precioso es el roce

de tu boca en la sombra.

(JLBorges, in Antología poética 1923-1977)



Continuando pelo labirinto, encontramos a Princesa Imperial Shikishi (ou Shokushi), sacedortisa do templo de Kamo e mais tarde freira budista. Morreu em 1201, solteira, como muitas princesas imperiais.
No seu caminho estudou composição com o mestre Fujiwara no Sh
unzei que não hesitou em incluí-la na sua antologia dos principais poetas imperiais.

Broken by the sound of the wind
That plays on the bamboo leaves
Near the window

A dream even shorter
Than my fleeting sleep.


(Princesa Shikishi, 1149-1201, trad.
Dr
Hisashi Nakamura, York, St John College)

na gravura, a princesa



O Mestre Shenzei tinha um filho, Fujiwara no Teika. Teika seguiu o seu pai e tornou-se um dos mais influentes poetas e divulgadores de poesia do seu tempo.
Além de escrever poesia, manteve um diário pelo qual se sabe que aos 19 anos conheceu a Princesa Shikishi e que tiveram uma relação estreita.
Houve muitas conjecturas acerca de uma ligação amor
osa entre os dois poetas, especulada em textos e até numa peça popular do sec.14.

The black hair through which
I used to run my hand for her;
Now strand by strand
It rises before my mind
When I lie down alone.

(Fujiwara no Teika, 1162-1241, trad. Dr Hisashi Nakamura, York, St John College)

imagem do poeta Teika recortado em papel
para uma representação
que encena o seu amor por Shikishi


Tal como o seu pai, Fujiwara no Teika também foi encarregue pelo Imperador de fazer uma compilação de poesia. Assim, recolheu e publicou a
Hyakunin-Isshu, que quer dizer "cem poems de cem poetas", os melhores do seu tempo.

Esta recolha manteve a sua importância ao longo do tempo e no século XV surgiu publicada sob a forma de baralho de cartas.


O Hyakunin-Isshu tornou-se então um popular e curioso jogo que se mantém até aos dias de hoje:
há dois tipos de cartas - as que têm a
figura dos poetas e a primeira parte da poesia (17 sílabas, 5-7-5) e outras que contêm a última parte (14 sílabas 7-7).
Um jogador lê a primeira parte, os participantes competem em procurar a carta com o final correspondente entre as outras no chão.

Deve ser fascinante e muito belo jogar aos cem poemas de cem poetas.


Carta de Shokushi Naishinno (Princesa Imperial Shikishi) no jogo de cartas com o Hyakunin-Isshu de Fujiwara no Teika.

4 comentários:

Nuno Gouveia disse...

Parabéns pelo extenso e decerto trabalhoso post.
Mas é como dizem:
Quem corre por gosto...
Lembrei-me de um poeta que, muito a propósito, talvez te interesse.
Wang Wei.
Mandarim de profissão,poeta,pintor,calígrafo,músico,eremita por gosto,pela quietude após o vagabundear do coração, Wang Wei (701-761)é uma das vozes mais sábias no imenso caudal de poesia que, há trinta séculos, inunda o mundo chinês de inteligência e serenidade.

Deixo-te este:

Vem beber um copo e descansar,
os homens mudam sempre, como as ondas do mar.
Nós dois temos envelhecido juntos,
apesar dos reveses, continuamos vivos.
(...)
Porquê tanta pergunta, tanta luta,
os negócios do mundo, as nuvens flutuantes?
Descansa, deixa fluir a vida
e vem jantar comigo.

_Slow_ disse...

ah obrigada. Os poetas chineses interessam-me muito, creio que nunca tinha lido este. Uma coisa me intriga e não consegui ainda perceber - porquê tantas referências ao vinho na poesa tradicional chinesa?

pingue-pongue disse...

O Google não deixa ninguém viver intrigado muito tempo:

Wine and Chinese Culture

;

_Slow_ disse...

Obrigada pelo artigo, sim, o mr google é um poço :) creio que o me intigrou sempre, ou tinha dificuldade em colocar, era as nossas videiras mediterrânicas na longínqua China.
etnocentrismo... creio que é o nome para isto... :)

talvez o seu clima também seja propício... e talvez nem todo o seu vinho seja de uva. Bom, de qualquer forma, demasiado específico e talvez não muito importante :)