sábado, dezembro 31, 2005

boa noite ano velho


Embora o ano novo chinês não tenha muito a ver com o nosso, este poema da Dinastia Tang parece perfeito para a despedida.

A montanha... a montanha à nossa frente - forte, imponente, imutável. Mas só aparentemente. Se pararmos para a observar, ela nunca é igual. Como é fértil e inesperada!

E tantas vezes este ano passámos a correr e nos debatemos com as nossas montanhas...
Talvez haja paz em parar e aceitar que ela é um espelho.



Moon over Mountain Pass

All the birds have flown up and gone;
A lonely cloud floats leisurely by.
We never tire of looking at each other -
Only the mountain and I.
-----------------------------------------------
The birds have vanished down the sky.
Now the last cloud drains away.
We sit together, the mountain and me,
until only the mountain remains.


Li Bai (713-765), poema traduzido por Sam Hamill



(na imagem, o caracter para montanha, por Zhang Zhengyu, 1903-76)

sexta-feira, dezembro 30, 2005

“meglio ispirato che spirato”

"aramente
raramante
raramenta
raramente
raramente mento, mentre monta un manto di menta nella mia mente

ho minto, ho minto

certamente,
ma tu menti, come una manta che non trova il suo mantra"

Nezojom, 29/12/05

para os amantes de jogos de palavras e outros prazeres, uma musa quente e uma música disparatada...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

uns restos de canela

A abstracção não precisa de mãe nem pai
nem tão pouco de tão tolo infante

mas o natal de minha mãe é ainda o meu natal
com restos de Beira Alta

ano após ano via surgir figura nova nesse

presépio de vaca burro banda de música

ribeiro com patos farrapos de algodão muito
musgo percorrido por ovelhas e pastores

multidão de gente judaizante estremenha pela
mão de meu pai descendo de montes contando

moedas azenhas movendo água levada pela estrela
de Belém

um galo bate as asas um frade está de acordo
com a nossa circuncisão galinhas debicam milho

de mistura com um porco a que minha avó juntava
sempre um gato para dar sorte era preto

assim íamos todos naquela figuração animada
até ao dia de Reis aí estão

um de joelhos outro em pé
e o rei preto vinha sentado no

camelo. Era o mais bonito.
depois eram filhoses o acordar de prenda no

sapato tudo tão real como o abrir das lojas no dia
de feira

e eu ia ao Sanguinhal visitar a minha prima que
tinha um cavalo debaixo do quarto

subindo de vales descendo de montes
acompanhando a banda do carvalhal com ferrinhos

e roucas trompas o meu Natal é ainda o Natal de
minha mãe com uns restos de canela e Beira Alta
.

João Miguel Fernandes Jorge, Actus Tragicus
Lisboa, Editorial Presença, 1979


Há muitos anos que este é o meu perfeito poema de natal. Como acontece com toda a grande poesia, fica pouco mais para dizer.
Gostava... gostava de levar os meus amigos, de comboio, linha da Beira Alta acima até onde cheira a neve e a pinheiros...

Bom Natal.

terça-feira, dezembro 20, 2005

O que Sintra mostra e esconde

Um milionário e um cenógrafo juntaram-se em Sintra para construir a extravagante e envolvente Quinta da Regaleira.

A Quinta, ou local onde se encontra actualmente, passou por algumas mãos até ser comprada por Carvalho Monteiro, chamado, como o seu pai de quem herda a fortuna, "Monteiro dos milhões”. Augusto Carvalho Monteiro forma-se em Leis, em Coimbra, e a história descreve-o como homem de erudição, bibliófilo, camoniano, melómano. E também excêntrico, altruísta e maçon.

Para projectar e construir o Palácio da Regaleira chama Luigi Manini, um italiano a trabalhar como cenógrafo no S. Carlos.

Manini é outro talento exuberante e dedica-se também à pintura e arquitectura, tendo projectado o Palácio Real do Buçaco.

A construção do conjunto de edificações que fazem a Quinta da Regaleira decorre nas primeiras décadas do século XX e, tal como hoje, o seu carácter único causa as maiores perplexidades.

De um artigo sobre o local, retirei esta citação do jornal O Século:

“... o que á dêntro daquéla propriedade nem se concebe nem se dscréve. Com excéção de uma monumental fonte Luís XV, tudo é manuelino. Tôrres, carramachõis, mirantes, pórticos, cavalariças, cocheiras, varandas, abóbodas, muros, cascátas, grútas, aquário, tudo é belo e graciôso, (...) O que sobretudo espantará os nóssos leitôres é que esta óbra colossal, vai ainda em mênos de metáde. Falta a càza e e falta a capéla, que são as principais construçõis.”
Reportagem – Jornal o Século 1904

Tudo é excessivo, simbólico – melhor, de várias simbologias cruzadas -, misterioso, intrigante.

Nenhuma curva se dobra ao acaso, nenhum caminho se percorre sem intenção.
Pode ser um sonho - um sonho magnífico de criança, um parque de aventura permanente, com as suas torres, passagens secretas, corredores escuros… Ou uma grande representação: o arquitecto Luigi Manini vem da ópera, da obra de arte total, e na Regaleira tudo parece sumptuoso demais para ser verdadeiro.
Cenários revelam outros cenários, onde se encenam quadros mitológicos, ou cristãos, ou iniciáticos, ou pueris.
Não admira que aqui se cruzem tantas referências - não só as maçónicas, rosa crucianas e alquimistas que os conhecedores salientam.
As artes, os mitos clássicos, a história e geografia, a literatura, as ciências - universos de conhecimento por onde certamente passeavam estes dois homens cultos e visionários.
As grandes belezas da natureza podem ser esmagadoras, mas o génio do homem... a capacidade criativa total do homem pode deixar-nos completamente extasiados como aqui na Regaleira.

Como nota final: o projecto que estes dois homens iniciam não é puramente episódico. Carvalho Monteiro encomenda a Manini o seu túmulo no Cemitério dos Prazeres. Uma mesma chave abria esta porta, a Regaleira e o seu Palacete da rua do Alecrim, em Lisboa.

quarta-feira, dezembro 14, 2005



This is love: to fly toward a secret sky,
to cause a hundred veils to fall each moment.

First, to let go of live.

In the end, to take a step without feet;

to regard this world as invisible,

and to disregard what appears to be the self.

Heart, I said, what a gift it has been
to enter this circle of lovers,

to see beyond seeing itself,

to reach and feel within the breast.


Rumi, The Divani Shamsi Tabriz, XIII


Rumi (1207-1273) foi fundador da ordem "Mawlawi Sufi", uma irmandade espiritual do Islão. Nasceu no Tajikistão, parte do grande e fascinante Império Persa e atravessou o período em que este passou do domínio turco para o dos mongóis... uma história que vale a pena desfiar.

banda sonora tocada sobre o tapete


domingo, dezembro 11, 2005

A ciência, os artistas e as suas amantes.

Excerto de "To his coy mistress", de Andrew Marvell:

"... Thy beauty shall no more be found,

Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honor turn to dust,
And into ashes all my lust:
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on the skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run."

Escrito no século XVII, este é o desfilar dos mais subtis e poéticos argumentos para vencer as resistências de uma amante tímida. Este poema aparece citado num jornal online, a propósito de um estudo que estabelece uma correlação entre capacidade criativa e maior actividade sexual.
A criatividade de Picasso ou Byron, citados como incansáveis conquistadores, actuaria assim como estratégia de acasalamento. Por outro lado, os poetas, sobretudo estes, morrem mais cedo que qualquer outra pessoa, tornando assim "urgente" o impulso sexual. O estudo -
"Schizotypy, creativity and mating sucess in humans" - demonstra uma relação entre traços esquizóides e sucesso na atracção do sexo oposto, mediada pela actividade criativa. Ah... mas não vale a pena deixar a loucura seguir rédea solta. Acima de certos níveis, alertam os cientistas, a desordem é demasiada para se conseguir manter a actividade criativa ou sexual.
"Vida dupla"... vida esquizofrénica.

na imagem, "
Nu couché avec Picasso assis a ses pieds," Picasso, 1902-1903

sábado, dezembro 10, 2005

Nostalgia

Registo de uma manhã de inverno em Lisboa, com sol quente e ar lavado.

Um edifício excêntrico e maltratado… A Casa dos Bicos, com as suas 1125 “pontas de diamantes” foi construída em 1523 para um filho de Afonso de Albuquerque, ao estilo dos palácios italianos e espanhóis da época. Os dois pisos superiores foram destruídos no Terramoto e reconstruídos há pouco mais de 20 anos. Li que o edifício chegou a servir para salga de peixe!

No tempo de Afonso III já havia registos da Feira da Ladra. Está no Campo de Santa Clara desde 1882, depois de ter passado pela Ribeira Velha, Paço da Ribeira, Rossio, Bemposta, Campo de Santana e Passeio Público.

Nostalgia, "nostalgia" disse uma voz inteligente - é o que compra e vende mais na Feira da Ladra.


O Mosteiro de S. Vicente de Fora foi fundado em 1147 por D. Afonso Henriques, cumprindo um voto pelo sucesso da conquista de Lisboa aos mouros. Ao lado fica a Igreja, já do século XVI, mandada construir em 1582 por Filipe II e inaugurada em 1629. As minhas fontes de não são claras, mas o mosteiro orignal terá dado origem a este, também do séc. XVI.
Lá dentro… os claustros com azulejos, túmulos dos reis, um núcleo museológico e pequenas curiosidades: a vista de Lisboa a 360 graus, o inacreditável trabalho de mármore embutido na sacristia ou um “boneco” menino Jesus rodeado de vestidinhos para trocar… e terraços amplos e ensolarados.

Lisboa... Lisboa, sentimental, risonha e um pouco tonta.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Da estranha Albânia, versos de amores estilhaçados.

Sei muito pouco ou nada sobre a Albânia... país fechado e desconhecido. O único albanês que conheço diz que do seu país só se fala da pobreza por razões de propaganda. A costa, diz, é paradisíaca e rivalizaria com os destinos turístico italianos e gregos. Pelo que vi, é capaz de ter razão... sem querer fazer contra-propaganda, a Albânia é bem capaz de ser um belo (e não muito caro!) local de férias...

Falar deste país pode despertar alguns sorrisos irónicos... A Albânia e os albaneses? Francamente...! Mas, pensando bem... não serão muito diferentes de nós. Também eles devem pensar que Portugal é um país pobre, provinciano, atrasado...
Não, não devemos ser muito diferentes.

Do seu poeta mais famoso, encontrei este belo "Crystal":

Crystal

It's a long time since we saw each other and I feel
I am forgetting you. The memory of you
Dies in me day by day,
The memory of your hair
And everything about you.

Now I'm looking everywhere
For a place to drop you
A line, a verse, or crystal kiss -
And so depart.

If no grave will receive you,
No marble nor crystal sepulchre -
Will I have to keep you always with me
Half-dead and half-alive ?

If I can't find a chasm to drop you into
I'll look for a lawn or field
Where I will scatter you softly
Like pollen.

Perhaps I'll trick you into an embrace -
And go away irrevocably
And neither of us will know the other.
This is forgetting isn't it ?


Ismail Kadare

Parece sempre redundante explicar ou discorrer sobre a poesia. Ela já condensou todo o racciocínio e o balbuciar insconsciente sobre o tema que pôs em verso.
Este poema também é assim.
Gostava só de demorar no último verso " This is forgetting isn't it?"
O poema é belo e comovente desde o início, mas aqui... aqui culmina.

O poeta revela a sua dôr, a sua fragilidade (o amor e o esquecimento, frágeis como cristal).
Pede-nos ajuda. Somos nós quem tem de lhe dizer que sim, que ele vai esquecer... não vai?

sábado, dezembro 03, 2005

A janela sobre o semáforo.


Quase todos os dias passo por aquela janela. A cortina de “voile” está sempre afastada e do outro lado do vidro uma velha, triste, de mão no queixo, olha para a rua. Quando não está, a cortina mantém-se afastada - como se tivesse o molde dela, como que a dizer que é como se ela lá estivesse. É assim há pelo menos um ano. Desde que comecei a reparar e, claro, agora é impossível deixar de olhar. O prédio, a janela, a cortina, a velha. Tristes, tristes, tristes. Não há nada de poético nem de redentor nesta miséria urbana. Apenas angústia.
Hoje olhei, como sempre. De longe já se via a cortina levantada, o vulto na posição habitual…

Ah! Mas o hábito engana… não, não era a mesma posição.. nem a mão segurava o queixo… o tronco estava direito, não semi-curvado para o lado e… não era ela! Hoje estava lá um homem, velho também, mas… homem!


E aqui, música de amor de outro tempo: Lucienne Delyle, Mon amour de Saint Jean