sexta-feira, novembro 25, 2005

o rosto bonito e comovente de Isabel de Castro



Ontem um actor dizia, "estão a desaparecer os dos anos 30...".
Isabel de Castro foi actriz durante quase 60. Leio que se estreou no teatro com 14 anos. Muito jovem foi para Espanha, seguindo uma paixão. Desse amor de 7 anos não sei, mas a lista de filmes é importante, lá e cá. Representou de tudo. Até de si própria lutando contra o cancro no "Música para Si" de Solveig Nordlund.
De resto, uma vida frugal, despojada.

Tinha este rosto frágil e generoso que só têm os grandes actores.


quando o telefone toca


PBX… era assim que ouvia designar os aparelhos à frente dos quais se sentavam as telefonistas de outros tempos.

Parece que ainda é o termo técnico correcto - private branch exchange - mas sabe a antigo… Sabe a filme…as mãos manicuradas de jovens elegantes a levantar e baixar cavilhas, a trocar fios… ouvindo intrigas e segredos, ligando amantes, gangsters, conspiradores.

Hoje um dos escritórios onde trabalho esteve sem telefone o dia inteiro. A operadora não consegui solucionar ou dar uma alternativa – telemóveis de substituição talvez não fosse difícil… Parece estranho… como ficar sem telefone? uma empresa…?

quinta-feira, novembro 24, 2005

I remember George Best



No momento em que escrevo, George Best está a sofrer e eu fico triste por ele. Há muito tempo que não ouvia o seu nome… trouxe de volta a adolescência. Lembro-me que, certamente já depois da carreira de futebolista, fez uma série que passou na RTP.

Era muito didáctica – recordo o modo como explicava em que parte do pé se devia bater com a bola, qual o efeito que causava… explicado e demonstrado! Devia ter uma grande capacidade comunicativa para prender assim quem não ligava nada a futebol. Na altura, uma barba “seventies” cobria-lhe o rosto, mas o sorriso era tão “handsome” como em todas as fotos que agora vejo dele. Parece que foi uma verdadeira pop-star... jovem irlandês promissor chega ao topo, usa e abusa da fama, mergulha na decadência... e fica um mito.

Como estás ?



... simples, muito simples e automático.. "olá, como estás.. ?" Normalmente não estamos à espera de elaborar sobre o assunto, mas hoje tive de pensar no que estava a perguntar. Não uma, mas duas vezes.

Da primeira vez, o meu amigo Vittore brincava (acho... !) e insurgia-se "que perguntas!". Da segunda, exactamente à mesma saudação, a B. de 10 anos, fazia o comentário seco: "mas ainda há bocado falámos".
Bom... ok. Vou ter de pensar melhor.

Entretanto...

quarta-feira, novembro 23, 2005

La Spada nella Roccia - uma lenda bela e misteriosa da Toscânia.

Do meu amigo S. de Verona, fotografias e uma lenda.

Galgano Guidotti era um cavaleiro medieval, sanguinário e mulherengo como os do seu tempo. Depois de ter um sonho com o Arcanjo Miguel recolhe-se e torna-se eremita. Meses depois de vida ascética, a mãe convence-o a sair para se encontrar com uma antiga noiva. A caminho da cidade, Galgano cai do cavalo e tem uma visão que lhe diz para renunciar de vez a todos os bens materiais. O cavaleiro responde que isso seria tão difícil como rachar uma pedra com a sua espada. E mostra-o com um gesto.

A espada entra na rocha e aí permanece até hoje.

San Galgano morre aos 33 anos, em 1181 e é canonizado quatro anos depois.

Outra variante da lenda conta que ele enterrou a espada para nunca mais ter a tentação de a usar… outra ressalta que Galgano marcou com a espada a forma da cruz de Cristo, junto à qual se ajoelhou… outra ainda pergunta se Galgano não será Galahad , o cavaleiro da Távola Redonda.

Ah… a Excalibur também enterrada…

A espada na rocha pode ser vista na Ermida de Montesiepi, construída logo após a morte do Santo. Esta ermida tem uma curiosa forma redonda, evoca o sonho com o Arcanjo Miguel. Nessa visão, o Arcanjo apresenta Galgano aos Apóstolos reunidos numa casa redonda.

Desde logo, o movimento de peregrinos era tal que os monges de Cister foram autorizados a construir uma Abadia ao lado da Ermina: a imponente e gótica Abadia de San Galgano.

Nas palavras do meu amigo:

“…è un luogo magico, è immerso nel verde della campagna toscaza…. all'improvviso, in mezzo alla campagna, si intavvede una cattedrale maestosa decadente… con colonnati maestosi…ma più ci si avvicina...e più è sorprendente… - era stata sconsacrata molti secoli fa, era diventata una stalla. Li vicino su di una collina

un eremo dove all'interno...vi è questa spada conficcata nella rocía….”

Fica na Toscânia, Val di Merse, a sudoeste de Siena.

Mergulhando nos links:

A vida e milagre de San Galgano num dicionário de santos e beatos, italiano

Fotos bonitas e alguma informação sobre o local em italiano e onde também se fala da estupidez humana: “Per colpa o merito della stupidità umana, oggi, la spada nella Roccia, è protetta da una teca antivandalo od antistupido.”

“vidro anti-estúpido” merecia entrar no vocabulário corrente….

Info em inglês " San Galgano or True Story, Legendary Sword"

alma belga....



Se os belgas têm ou não alma, pode discutir-se. Depois deste poema, nada é certo:

VILLAGE

a village is a circle
drawn by hand
around a church;
 
a dove is a very
simple line void of air
on a rooftop;
 
a spring season leaves wet
stains on the paper
of the sky;
 
and look, now this is true
reality: I shall presently
let it rain
on my poem
so that it runs
into a watercolor
of sodden
illegible words. 

1974, Roland Jooris

pelo céu


A realidade ultrapassa a ficção...
Há poucas semanas ouvi no aeroporto de Lisboa, "Passageiro Deus, passageiro Deus para Nice, embarque imediato porta x". Olhei em volta, sorri, e voltei a olhar tudo, muito devagar para não perder o momento: o sol da manhã nas minhas costas, a pista em frente, um corredor envidraçado, de chão polido, azulado, silencioso e quase deserto. À direita os alarmes que tinham soado com os pregos dos meus saltos, a direita a porta onde iria embarcar - uma escala e depois... Nice...sim Nice. Deus ia no vôo directo. Bom...
Passados os instantes da praxe repetiram a chamada. Na minha cabeça pagã, continuavam a desfilar sinais divinos, filmes de humor absurdo...
Outras chamadas, outros vôos, outros nomes. Até ao "António Jesus, passageiro Jesus, última chamada para Newark, porta x" ... ah, não! O tipo de exagero que pode arruinar um bom script!

"heaven is a place where nothing ever happens", Talking Heads

quarta-feira, novembro 09, 2005

bacallà...


hum.. não tão luso com gostamos de o imaginar... talvez o mais correcto seja dizer que é comida de marinheiros. Em Itália, por exemplo, o bacalhau é tão difundido como cá, como me conta o meu jovem corrispondente di Verona:

“...per noi baccalà è il piatto pronto, cotto, mentre il pesce secco si chiama "stoccafisso". La storia comincia così... nel 1700.."mi sembra"… una nave della repubblica di Venecia che commerciava con l'Inghilterra finì fuori rotta per una tempesta finì su di un'isola norvegese..(che non ricordo il nome). Vi rimasero un intero Inverno e furono ospitati dalla popolazione del posto. L'unico alimento che c'era era questo merluzzo essiccato che in norvegese si chiamava "stoky fisch" (pesce essiccato al sole su dei pannelli in legno ...) Questi marinai in primavera tornarono in patria a venezia…solo che con loro portarono anche questo pesce..che era molto pratico perchè essendo disidratato si conservava bene. Uno di questi marinai era di vicenza...e inizio un commercio molto intenso tanto che naque anche il baccalà alla vicentina.”

(clicando aqui vê-se a receita... magia)


terça-feira, novembro 08, 2005

Mr. Gallo is 5'11'' and has blue eyes




Vincent Gallo, belo, perigoso e excêntrico, fez as delícias dos blogs com este texto publicado no seu site (estava na secção "merchandise", mas foi retirado)


"$1 Million

Price includes all costs related to one attempt at an in-vitro fertilization. (A $50,000 value) If the first attempt at in vitro fertilization is unsuccessful, purchaser of sperm must pay all medical costs related to additional attempts. Mr. Gallo will supply sperm for as many attempts as it takes to complete a successful fertilization and successful delivery. Sperm is 100% guaranteed to be donated by Mr. Gallo who is drug, alcohol and disease free. If the purchaser of the sperm chooses the option of natural insemination, there is an additional charge of $500,000. However, if after being presented detailed photographs of the purchaser, Mr. Gallo may be willing to waive the natural insemination fee and charge only for the sperm itself. Those of you who have found this merchandise page are very well aware of Mr. Gallo's multiple talents, but to add further insight into the value of Mr. Gallo's sperm, aside from being multi talented in all creative fields, he was also multi talented as an athlete, winning several awards for performing in the games of baseball, football and hockey and making it to the professional level of grand prix motorcycle racing. Mr. Gallo is 5'11" and has blue eyes. There are no known genetic deformities in his ancestry (no cripples) and no history of congenital diseases. If you have seen The Brown Bunny, you know the potential size of the genitals if it's a boy. (8 inches if he's like his father.) I don't know exactly how a well hung father can enhance the physical makeup of a female baby, but it can't hurt. Mr. Gallo also presently maintains a distinctively full head of hair and at the age of 43 has surprisingly few gray hairs. Though his features are sharp and extreme, they would probably blend well with a softer, more subtly featured female. Mr. Gallo maintains the right to refuse sale of his sperm to those of extremely dark complexions. Though a fan of Franco Harris, Derek Jeter, Lenny Kravitz and Lena Horne, Mr. Gallo does not want to be part of that type of integration. In fact, for the next 30 days, he is offering a $50,000 discount to any potential female purchaser who can prove she has naturally blonde hair and blue eyes. Anyone who can prove a direct family link to any of the German soldiers of the mid-century will also receive this discount. Under the laws of the Jewish faith, a Jewish mother would qualify a baby to be deemed a member of the Jewish religion. This would be added incentive for Mr. Gallo to sell his sperm to a Jew mother, his reasoning being with the slim chance that his child moved into the profession of motion picture acting or became a musical performer, this connection to the Jewish faith would guarantee his offspring a better chance at good reviews and maybe even a prize at the Sundance Film Festival or an Oscar. To be clear, the purchase of Mr. Gallo's sperm does not include the use of the name Gallo.
The purchaser must find another surname for the child."


quem é ainda capaz do amor ?

os pais de um menino morto nos conflitos iraelo-palestinianos ofereceram os orgãos do seu filho para que pudessem salvar outras crianças, de qualquer nacionalidade

há muito tempo que não lia uma notícia que me deixasse tão muda

as palavras que faltavam



vou repetir-me... outra vez poesia... e de novo a tradução perfeita de uma emoção ou desejo que ainda não tinham encontrado palavras.
O Poetry International enviou-me este Poema da Semana. De um autor que não conhecia e que irei procurar mais vezes, Lee Harwood. Do seu próprio percurso escreveu assim:

I was born in 1939 and grew up in Chertsey, Surrey. In 1958 I moved to east London and studied English at Queen Mary College, Unversity of London. Later, in 1967, I moved to Brighton where I've lived ever since, except for a few years spent in the USA and Greece. It's always good to be by the sea. Over the years I've worked as a monumental mason, a librarian, a bookshop assistant, a Post Office counter clerk, and a railwayman. In the 1960s and '70s I edited a number of 'little magazines' and since Bob Cobbing published my first book, title illegible (writers Forum, 1965), have had a number of collections of poetry and prose published, as well as my translations of Tristan Tzara.

E este é o poema:


QASIDA
it’s that
the quiet room
the window open, trees outside
“blowing” in the wind.
the colour is called green.
the sky.
the colour is called blue.
(sigh) the crickets singing


windows open. You move . . .
No, not so much a moving
but the artificiality of containment
in one skin. “No man an island” (ha-ha Buddha)
. . . lonesome, huh?

THE music, THE pictures
(go walkabout)
Small wavy lines on the horizon

somewhere over the distant horizon
the distant city (I hadn’t thought of this,
but pull it in) and you

the children are sleeping
and you’re probably sitting in the big chair
reading or sewing something
It’s quarter past nine
I find you beautiful

***


the words come slowly. No . . .
your tongue the lips moving
the words reach out –
crude symbols – the hieroglyphs
sounds, not pictures

the touching beyond this –
I touch you

in the water
as though I’m in you

that joy
and skipping in the street
the children hanging on our arms

***


You know . . . – the signals (on the horizon?)
“blocked off” the ships at night
keep moving

these clear areas beyond the clutter
that clearing

on summer nights as we lie together . . .

there are green trees in the street
yes, there is the whole existence of
our bodies lying naked together
the two skins touching
the coolness of your breasts
the touch

The setting . . .
it doesn’t really matter
We know
So much goes on around us

on the quay they’re playing music
we’ll eat and dance there,
when the wind gets cold
we’ll put our sweaters on
it’s that simple, really . . .

***


. . . the dry fields
Up on the mountain sides
white doves (of course) glide
on the air-currents hang there

someone said tumble
“the sound of words as they tumble
from men’s mouths” (or something like that)

there are these areas,
not to be filled, but . . .

it’s a bare canvas, but not empty –
all there under the surface

This is not about writing,
but the whole process
You step off the porch into the dry field
You’re there
You see, you’re there
Now, take it from there . . .