sexta-feira, julho 29, 2005

Leais conselhos

Um livro que hei-de procurar: o Leal conselheiro de D.Duarte. Dele leio no site do Instituto Camões que terá sido o primeiro ensaio filosófico escrito em língua portuguesa. Interessante e inesperado ter reflectido sobre a saudade:

"transformou a saudade em problema do espírito, surgindo-lhe esta como um sentimento indizível, devendo cada qual consultar o seu coração «no que já por desvairados feitos tem sentido», dado que «nos livros nada vem». Trata-se de um sentimento que parte do «coração» mas que é autónomo e superior aos seus efeitos, sejam eles a tristeza, o nojo, o prazer, o desprazer ou o aborrecimento, podendo assim gerar efeitos contraditórios, pois que a variabilidade é um atributo do coração. Logo, se as suas manifestações têm um conteúdo psicológico preciso, como é o caso da tristeza, a saudade em si é um problema do espírito que não se define na base de um conceito preciso, devendo antes cada um proceder interrogativamente com recurso à experiência interior." ( excerto do mesmo site)

"Nos livros nada vem"... é interessante...

quinta-feira, julho 28, 2005

Musas de rojos pelas esplanadas

Música – a arte das musas. Uma arte abstracta, maravilhosa, uma das expressões do homem no seu melhor.

O que terá começado primeiro, a música o ou desejo de fazer músicas. Os sons harmoniosos da natureza, do cantar dos pássaros, que se quiseram fixar? Ou os sons eram um caos a carecer de harmonia…?

Não creio que, qualquer que tenha sido o ímpeto inicial, alguma vez se tenha pensado que era necessário abafar os sons da natureza, ou seja, que a música deveria sobrepor-se às criações rumorosas dos deuses… o soprar dos ventos, o crepitar do fogo, o marulhar dos mares, o restolhar das folhas, o ribombar dos trovões… e todas os vozes dos animais…latidos, balidos, uivos e gemidos… e alguns outros produzidos pelo Homem e o acaso… a estalido grave do cordame de um barco, as apitos de nevoeiro dos navios, o girar das rodas de uma bicicleta …

Em suma, não se criou a música para competir com os outros sons, naturais ou produzidos.

Daí que pense que devia haver uma grande Manifestação do Silêncio que acabasse ou pelo menos baixasse consideravelmente o volume da música das esplanadas. Nas que são ao pé do mar, a situação é gritante, mais do que literalmente. Música em vez do mar e do vento !? Não aceito…

quarta-feira, julho 27, 2005

Lacunas




Há alguns meses trouxe da secção de comédia do videoclube o dramático e desconcertante “The eternal sunshine of the spotless mind”. Não me lembro como a crítica o tratou, mas é um filme particular.

Lembrei-me por causa das lacunas… da lacuna de escrever aqui, de outras.

O filme é sobre a memória, como é extraordinária, como nos afaga e aquece e… como nos dói, santos deuses… Depois do amor, depois do adeus … o que se faz com os objectos, as paisagens, as músicas, os cheiros, os sabores… as memórias?

Está recheado de curiosidades e perplexidades: na superfície uma história de amor mas com ambiente de ficção científica. Um casal, um amor que chega ao fim, as memórias que doem demais…. aí entra o fantástico, aí entra a Lacuna Inc., a genial invenção de um médico que apaga as más recordações e nos deixa prontos para começar do zero, novinhos em folha. Outra curiosidade: o realizador, Michel Gondry. Assinou clips para as maiores estrelas pop, anúncios para as maiores marcas do mundo, foi o primeiro a usar o “morphing” num clip, a utilizar as câmaras fotográficas que disparam em simultâneo à volta do objecto. Até leio no Imdb que o homem é neto do inventor dos sintetizadores !? Ainda: os actores, Jim Carey, que passei a respeitar depois de o ver aqui; Kate Winslet, a Clementine… a namorada, de cabelo e casaco cor de clementina.
E alguém tem alguma explicação para o título…? Um título longo, absurdo, completamente anti-comercial !? Nem me lembro como era em português. Em italiano tinha uma versão interessante, literalmente “se me deixas, apago-te”.
Por fim, por agora, outra curiosidade genial do filme: a Lacuna Inc. a empresa que apaga as memórias, com um site na net, incluindo um teste de avaliação para ver se precisamos dos seus cuidados.


“You are the prime candidate for the Lacuna procedure. While your past does not dictate your actions completely, it still affects your everyday life. You seem to have multiple memories that could be erased. Several initial visits will focus on sorting and removing these main issues. Any subsequent treatment will then be directed toward sustaining your newfound level of happiness. Please contact us soon, so your transformation can begin.”

Let us know if you are interested in our Preferred Customer membership card. This card will give you discounts on almost all of our regular services. By becoming a member you will also receive our monthly publication that is full of news, success stories, and special deals and offers."

E nós, mortais, que não estamos em Hollywood, nem somos inventores, nem génios, que podemos nós fazer para nos protegermos das nossas memórias? Pergunta sem resposta… outra lacuna. Hmmm, não é assim que me salvo de não escrever hã tantas semanas...

domingo, julho 10, 2005

Amigos, príncipes

Prince of friends é uma expressão que encontrei algumas vezes na poesia chinesa. Embora a tenha lido traduzida em inglês e não conheça o suficiente da poesia ou cultura chinesa para a entender na totalidade, sempre achei a forma mais perfeita e delicada de falar do afecto por um amigo.

Um amigo distante com quem troquei uma riquíssima correspondência foi o meu prince of friends, pela forma elegante como se exprimia, pela delicadeza com que me escutava.

Não preciso de pensar muito para me aperceber que os amigos que estimo são príncipes... não é snobismo meu, é mérito deles. E não tem a ver com alguma coisa que tenha vindo de fora para dentro - erudição, cultura, informação, dinheiro, fama - antes o contrário.... é algo que fica deles no mundo... como se tivessem inconscientemente uma divisa, algo que os define e que legam como dádiva e também exemplo a seguir.

Há pouco tempo senti-me privilegiada em ter boa parte dessa aristocracia em minha casa... Há pouquíssimos dias, no fim da semana mais ruinosa da minha vida, e por uma irónica e bela lei de compensações, terminei a noite com o meu amigo L. num restaurante no meio de claustros. Outro gesto de príncipe.


E agora vou falar dos meus amantes plebeus... :-))

domingo, julho 03, 2005

aldeia à venda

nem sei o que diga:

Aldeia à venda na Internet

Habitante leva a leilão localidade perto da Guarda



Metade de uma aldeia, nos arredores da Guarda, está à venda na Internet. Mas até ao momento ainda não há compradores.


strangers are strange...

um blog inquietante:

http://postsecret.blogspot.com./

e familiar

lado a lado - Cesare Pavese e José Gomes Ferreira

Foram contemporâneos e certamente José Gomes Ferreira terá lido Pavese. Não faço ideia, mas gostava de fazer :) , porque são coincidentes os títulos.

Os temas são diferentes... No do poeta português, apesar do título ser ainda mais radical, há luminosidade, há amor.
Em Pavese... apesar da luz de uma tarde de Verão... tudo é cinzento. Ou então de um sol tão claro e violento que queima tudo com uma luz demasiado clara e crua. É um poema muito solitário. De uma solidão que frutifica em nada.


LAVORARE STANCA

Traversare una strada per scappare di casa
lo fa solo un ragazzo, ma quest`uomo que gira
tutto il giorno le strade, non è piu un ragazzo
e non scappa di casa.

Ci sono d`estate
pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese
sotto il sole che sta per calare, e quest`uomo, che giunge
per un viale d`inutili piante, si ferma.
Val la pena esser solo, per essere sempre piú solo?
Solamente girarle, le piazze e le strade
sono vuote. Bisogna fermare una donna
e parlarle e deciderla a vivere insieme.
Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte
c`è lo sbronzo notturno che attacca discorsi
e racconta i progetti di tutta la vita.

Non è certo attendendo nella piazza deserta
que s`incontra qualcuno, ma chi gira le strade
si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,
anche andando per strada, la casa sarebbe
dove c`è quella donna e varrebe la pena.
Nella notte la piazza ritorna deserta
e quest`uomo, che passa, non vede le case
tra le inutili luci, non leva piú gli occhi:
sente solo il selciato, che han fatto altri uomini
dalle mani indurite, como sono le sue.

Non è giusto restare sulla piazza deserta.
Ci sara certamente quella donna per strada
que, pregatta, vorrebbe dar mano alla casa.

Cesare Pavese (1908-1050)



VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA!

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira (1900-1985)

if you're blue... (click foto)