sexta-feira, abril 29, 2005

O peso e a leveza das horas

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Das 24 horas do dia, quantas valem realmente a pena?
Das coisas todas vividas, sabemos que o amor é das que valem a pena. Mas, mesmo assim, estamos sempre a falar de coisas tão diferentes. E isso quando falamos.

Encontrei esta nova voz (aliás, recebi-a de um site): Sandra Cisneros. Não conheço muito da poesia americana contemporânea, muito menos feminina, muito menos da de ascendência mexicana. Investigando na net, parece importante - ficção, poesia, prémios literários, actividade académica, sites vários.
"I currently earn my living by my pen. I live in San Antonio, Texas, in a violet house filled with many creatures, little and large.", conclui Sandra Cisneros na sua autobiografia. A cor da casa, chegou a gerar controvérsia e polémica pública junto da comunidade tradicionalista, mas a autora conseguiu mantê-la. Não sei se foi à luta ou se é uma mulher de luta. De fibra será, vendo a sua obra feita.
O que me atraiu foi o poema, esta voz sobre o amor. Esta arte
que só os poetas têm para traduzir o mundo, a alma e, neste caso, o corpo.

You Like to Give and Watch Me My Pleasure

You like to give and watch me my
pleasure. Machete me in two.
Take for the taking what is yours.
This is how you like to have me.

I'm as naked as a field of cane,
as alone as all of Cuba
before you.

You could descend like rain,
destroy like fire
if you chose to.

If you chose to.

I could rise like huracan.
I could erupt as sudden as
a coup d'etat of trumpets,
the sleepless eye of ocean,
a sky of black urracas.
If I chose to.

I don't choose to.
I let myself me taken.

This power is my gift to you.

Sandra Cisneros, in LOOSE WOMAN

terça-feira, abril 26, 2005

ainda ontem, lua cheia



(Paul Klee, Incendio sotto la luna piena)

Lua cheia... sei que quando está mais próxima da terra a sua força magnética "levanta" as marés. Da sua influência nos humanos, nada sei.
Talvez que não se saiba, se acredite apenas.

Mais cinema. Curtas.

Numa sessão vi estas 5 curtas. Todas histórias bem realizadas, bem contadas, profissionais.

CHYENNE de Alexander Meier SUÍÇA 5 min.

Num cenário de subúrbio, um imenso relvado entre dois prédios cinzentos, uma menina e um corvo encontram-se num duelo. O que me marcou mais foi essa espaço imenso e vazio, sem vida, sem cor - o próprio relvado era azulado. Talvez seja a história de como a fantasia da menina controla esse vazio.

STREETS de Jon Howe REINO UNIDO 15 min.

Um junkie inglês, de rosto branco e redondo - na verdade, não o achei suficientemente magro para ser tão junkie, mas admito que é estereotipo meu. O filme era triste, como não podia deixar de ser, e não me contou nada de novo.

BEK de Lucette Braune HOLANDA 12 min.

Um filme de animação. Sou um pouco esquisita com a animação. Não vejo com prazer todo o tipo de experiências. A história de uma menina que nasceu com asas e um bico. Era um pouco triste. Além das questões do aceitar ou não a diferença, confesso que não percebi o sentido da história.

MINA DE FÉ de Luciana Bezerro BRASIL 15 min.

Um episódio de vida de favela, traficantes, polícias, sobreviventes, gente que ama, que se protege, que sonha. Bom, muito bom. Além do mais, traz consigo uma história interessante, contada pelo meu culto e sempre bem informado querido amigo L. A começar pelo nome: “Mina de Fé”, significa mulher forte, âncora, “mina” como abreviatura de “minina”. É um filme da escola da “Cidade de Deus”. Escola, literalmente. Quando Fernando Meirelles decide filmar não com actores mas com habitantes da favela, cria uma oficina de interpretação na qual trabalha meses antes de realizar o filme. O projecto não terminaria e a escola continuou a formar jovens da favela no cinema. Luciana Bezerro foi uma das alunas dessa escola que, se li bem, se chamará “Nós do Cinema” e tem estatuto de ONG.

HOME GAME de Martin Lund NORUEGA 10 min.

Há realidades universais. No Brasil, em Portugal, na Noruega, levantar cedo para chegar a horas ao trabalho, dia após dia, pode ser uma penosa prova... Uma tradicional dupla de comentadores desportivos está instalada na sua cabine, dentro do quarto de um jovem com pouca vontade de se levantar. Os comentadores fazem o seu trabalho: o relato em directo dos antecedentes e ambiente da prova, dos preparativos, dos primeiros movimentos, a falsa partida, o desistir, o retomar e corrida para a vitória. Hilariante! Uma boa ideia, bem contada e com uma interpretação impecável.

BOY de Welby Ings NOVA ZELÂNDIA 15 min.

Um filme “negro”, violento e muito perturbante. Tem recurso formais interessantíssimos - a cor, quase preto e branco, a ausência de diálogos ouvidos, e a sua presença em palavras chave que vão aparecendo e desaparecendo do ecrã. A música, canções, que contam o resto da história, alternãncia entre imagens realistas e planos simbólicos e encenados. Um poço.

THE QUIET ONE de Danyael Sugawara HOLANDA 31 min.

Um jovem vive há meses fechado numa divisão da sua casa, mantendo-se à margem da vida familiar, japonesa e conservadora. A sua ligação ao exterior são os chats da net e as conversas breves através da porta com a irmãzinha, com quem troca risotas e fotos pintadas do Beckham. O filme de humor e um bom contraste entre momentos sombrios, emocionalmente extremos, e outros bastante luminosos.

segunda-feira, abril 25, 2005

Dia da Liberdade


O 25 de Abril é importante e devia ser levado mais a sério. Noto com tristeza a indiferença de alguns dos meus pares. Pessoas da minha idade, do meu meio.

Hoje ouvi o presidente dizer que a sua memória de há 30 anos, dia das primeiras eleições livres, foi a da sua avó pôr o seu melhor vestido para ir votar pela primeira vez aos 95 anos.
Fiquei emocionada. Conseguimos imaginar a dignidade de que esta mulher se terá sentido investida?
Ser livre é ter dignidade, é ser inteiro e grande.

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Madrugada.

Gosto deste dia. Lembro-me da manhã, de me acordarem "houve uma revolução...!", lembro-me daquele tom de quem conta uma grande alegria. Todo o dia foi de grande alegria, apesar da incerteza, da confusão.

É madrugada. Que saia a revolução.

domingo, abril 24, 2005

Nostalgia


É uma palavra bonita. Em várias línguas.

Do grego:
Nostos
- regresso a casa e Algos: dor/desgosto.

Hoje num artigo sobre outro poeta, o poeta Joaquim Manuel Magalhães, falava de nostalgia como
" a dor do desejo de regresso".



Gueto de Varsóvia 60 anos depois

Antes da II Grande Guerra viviam em Varsóvia 370 mil judeus, 30% da população da cidade. Após a invasão nazi, os judeus são transferidos e aprisionados num gueto onde sobrevivem nas mais deploráveis condições. Às carências de toda a espécie, mortes por doença e inanição, juntam-se as deportações e as execuções públicas. Em 1943, por ordem de Himmler, o gueto é reduzido a cinzas. Imagens do gueto de Varsóvia, fotos tiradas pelos soldados nazis, estão agora em exposição no Goethe-Institut de Lisboa
“Este ano - seis décadas depois da guerra mais cruel que a humanidade viveu até agora - o mundo lembra os acontecimentos de outrora e em toda a parte são feitas reflexões acerca dos possíveis ensinamentos a tirar da História. A Alemanha, país onde estes crimes tiveram origem assume, devido à sua responsabilidade, um papel importante nesta reflexão. Por outro lado também antigos inimigos, vítimas e cúmplices mostram mais disponibilidade para reflectir sobre a sua participação nos acontecimentos de então.” Kurt Scharf, director do Goethe-Institut, no folheto cultural do instituto.
Desde que o frequentei, sempre estive convencida que instituto era um dos locais mais inteligentes e “progressistas” de Lisboa. Cada vez que ouço falar deles é sempre pelas melhores razões.
Vale a pena conhecer as iniciativas destes professores cultos e abertos. Temos tendência a ter visões tacanhas e estereotipadas dos outros povos e também dos alemães - não houve piadas estafadas ao Papa alemão? E não só no “vox-populi”, também na media (se calhar nem admira: a media está cada vez mais a representar o pior de nós).
Por aquilo que já devíamos ter aprendido com a História, devíamos ter mais cuidado com este racismo rasteiro e leviano.

sábado, abril 23, 2005

Rosas e livros



Os catalães casaram o dia do livro com o dia da rosa.
A 23 de Abril celebrava-se o dia de S.Jordi - o S. Jorge também patrono de Portugal. O santo venceu o dragão e viu do sangue derramado nascerem rosas rubras, sí­mbolo da Catalunha. Neste dia 23 de Abril morriam Cervantes e Shakespeare. Em 1955, depois da iniciativa de um editor catalão, a Unesco instituia este como o Dia do Livro. E da Rosa, na Catalunha.

sexta-feira, abril 22, 2005

Ainda... ancora Montale




Lo sai: debbo riperderti e non posso.
Come un tiro aggiustato mi sommuove
ogni opera, ogni grido e anche lo spiro
salino che straripa
dai moli e fa l'oscura primavera
di Sottoripa.

Paese di ferrame e alberature
a selva nella polvere del vespro.
Un ronzio lungo viene dall'aperto,
strazia com'unghia i vetri. Cerco il segno
smarrito, il pegno solo ch'ebbi in grazia
da te.
E l'inferno é certo.

Eugenio Montale


Não sei de onde vem a admiração que tenho por Montale. Nunca o estudei, ninguém mo apontou,
nem tenho italiano suficiente para compreender o que escreve. E acho-o bastante difícil! Sabia do seu nome quando há poucos anos o encontrei na net. Fiquei e fico com a respiração suspensa com alguns dos seus versos - " Lo sai: debbo riperderti e non posso"... é belo e grande.
No fim do ano passado tive uma verdadeira alegria ao ver uma edição bilingue dos seus versos. Esse livro, que se me tornou logo muito caro, andou misteriosamente perdido dentro de minha casa durante várias semanas - ultimamente isso acontece com alguma frequência, acho que são os livros a dar-me recados. Encontrei-o e agora reencontrei-o num momento em que, creio, estou disponível para o descobrir com dedicaçáo, vagar e amor.

quinta-feira, abril 21, 2005

é possível gostar de tudo o que se conhece de uma pessoa?
bom... se ele for o Henri Cartier-Bresson...

A foto acima chama-se Lisboa e tem a data de 1955.

quarta-feira, abril 20, 2005

Muitos são chamados, poucos... "pois, pois, queria vê-los era aqui, com a edição a fechar e a ter de escolher as palavras!"

Prémios Fanzine Vaticano
Bronze: toda a media que, graças a uma traduzione espresso, transformou uns cavalheiros em "papáveis" sujeitando-os aos mais delirantes juízos.
Prata: A Capital que ontem nas horas finais do desfecho da partida, ficou desvairada e publicou em chamada de capa: "D.José Policarpo: entrevista íntima".
Oiro... DN de hoje: relatando o momento em que se conheceu o nome do novo Papa, o enviado a Roma roeu a caneta, mordeu o lábio, apertou os lábios e escreveu repimpado : "As freiras pareciam extasiadas".

segunda-feira, abril 18, 2005

doxa.. closing argument

e claro que também o reino dos blogs é o reino da doxa... mas isso é tão público e descarado que não creio que se engane ninguém.

imagem:
Adoxa moschatellina (Adoxaceae ), from Prof. Dr. Otto Wilhelm Thomé, Flora von Deutschland Österreich und der Schweiz.

a praxis rendeu-se à doxa

A propósito de um comentário aqui feito, lembrei-me também de antigas aulas de filosofia. Recordo-me de falarmos da doxa. A opinião, o senso comum, por oposição ao conhecimento fundamentado.
Na altura, aos 16 anos, não tínhamos pruridos tolos: sabíamos claramente que a razão estava com aqueles que estudavam, sabiam. Eram os que valia a pena ler nos livros e jornais, escutar na rádio e nas televisões. E, sim, a liberdade de expressão já dava a todos acesso aos media - mas era clara a distinção entre a doxa e o saber.
Em pouco tempo alguma coisa mudou. Hoje a doxa domina os media e o discernimento vai ficando nebuloso. A quantidade de lugares comuns que se ouvem... Quem são todos estes cronistas e comentadores? Vêm da parte de quem? Qual é a família deles?
E para responder ao comentário que suscitou tudo isto, estas subtis e interessantes formulações:
Praxis - Greek term for action or doing, as opposed to creative production [poiêsis]).
Praxis: (Gr. praxis) Activity that has its goal within itself; conduct, distinguished from poiesis, or production, which aims at bringing into existence something distinct from the activity itself.
Mas isto não é nada. Com tempo e silêncio haverá que mergulhar naquilo que sobre praxis pensaram Sartre e os outros existencialistas, Adorno, Feuerbach e o próprio Aristóteles, entre outros... de boas famílias...:)

Viajando no ecrã: Istambul - Hamburgo - Lisboa


Istambul
Originally uploaded by _Slow_.
Uma jovem sorri para um homem decadente e pergunta-lhe: "€œQueres casar comigo?"€. Acabam de se conhecer, numa clí­nica .Com um sorriso luminoso, ela levará a sua avante.
"Head On - A noiva turca"€ tem um script inteligente, bons actores e curiosas soluções de montagem. O ambiente pesado e escuro de Hamburgo, a crueza de alguns momentos da história, são intercalados com inserts de um grupo de música tradicional turca que actua num palco em frente a Istambul. As suas canções de amor resumem o capítulo anterior do filme.
Em alemão e em turco, uma lí­ngua bonita, que lembra o árabe mas que nos é, de facto, mais próxima.

E escolhi este excerto porque o poeta tem o mesmo nome do que o protagonista, (o "€œC"€ inicial pronuncia-se "Tch")

"€œYou are light and beauty, like my country
The village where I was born was beautiful too
Now tell me of the place where you were born
Tell me a while."

Song, Cahit Kulebi, (1917-1997)

e neste azul, mais sobre o filme

quarta-feira, abril 13, 2005

Uma pausa na contemplação

"A contemplação carinhosa da angústia” é um título preferido de uma das minhas preferidas: Agustina Bessa-Luís. É um livro que reúne crónicas e o sentido da frase é, até, bastante benevolente.
No entanto, para mim torna-se irónico, escarnecedor, quando caio a contemplar as minhas maleitas e desventuras. E já se sabe, a contemplação não é amiga da escrita... Hoje decidi substituir o “não me apetece...” de auto-comiseração por uma disciplina. Se o olhar para dentro não traz matéria de escrita, olhemos para fora. (o Pacheco Pereira tem um “exercício de escrita” muito interessante no seu blog: descrever o que os seu olhos vêem, da esquerda para a direita).
E, na verdade, os jornais dos últimos dias até me prenderam por uns minutos - à falta de imaginação, façamos uma revista de imprensa:

Um mundo de distância.

Da China e do Japão conheço apenas aquilo que me fascina. Leio a poesia, vou descobrindo o cinema, maravilho-me com as cores, a “iconografia”, tenho curiosidade pelas línguas - gostava de distinguir mandarim de cantonês, acredito que poderia falar um pouco de japonês, com a sua alternância vogal-consoante-vogal-consoante tão familiar. Não conheço o suficiente sobre a história, sei pouquíssimo da actualidade.
Mas há dias os jornais vêm relatando notícias de um e outro país. Primeiro foram os tratados que regulamentam as importações têxteis chinesas que, parece-me, vêm apenas pôr a nu as nossas fragilidades. É uma pena que o Público online agora seja pago, faria um link para um lúcido artigo da Teresa de Sousa, sobre o assunto: “A hipocrisia do comércio justo”, publicado na última terça.
depois, os protestos violentos dos chineses, a pretexto de um manual de história publicado no Japão. Li, a propósito, que o Japão, já tinha pedido desculpa 17 vezes pelas atrocidades e violências cometidas contra o povo chinês. A “especificidade” do número é interessante. Quantas reverências e cortesias serão precisas para equilibrar esta balança?
Dias depois, leio que a China e a Índia entram em acordo para criar a maior zona de comércio livre do mundo. Hoje mesmo: Pequim considera uma “provocação” a intenção do Japão explorar petróleo e gás natural no mar a leste da China (perdoem, não sei o nome correcto em português).
China e Japão. Sei pouco sobre estas duas potências. Acredito que têm mais peso do que a imprensa nos faz crer. “Falta-me mundo” para compreendê-las.


Um temperamental na embaixada da paz.

Ead waHdha maa betSaffeq. / One hand can't clap. (prov. palestiniano)
Kol zman der mentsh hot nokh di oygn ofn, zol er nit ufhern tsu hofn/ As long as man has his eyes open, he should not cease to hope. (prov. yiddish)

José Mourinho foi convidado pelo Centro Peres para a Paz como Enviado Especial para o Desporto e para a Paz . O projecto de Shimon Peres quer incentivar a criação de escolas de futebol como veículo de união entre crianças israelitas e palestinianas.
Parece-me importante e inteligente trabalhar a paz com as crianças.


A semântica e os senhores do avental.

Durante um banquete, um maçon acaba de entregar ao Grão-mestre uma lista de nomes de informadores da ex-Pide, guardada e resguardada há anos. A revelação dos nomes seria, no mínimo, melindrosa.
Não me admira que haja por aí muitos informadores da ex-polícia política fascista. Não foi assim há tanto tempo... Há o lado sinistro e trágico: os presos, os torturados, os assassinados. Mas nesta rede corrosiva de informadores há também um carácter mais comezinho: alguém que aponta no papelinho ou diz ao ouvido do chefe as miudezas dos dias dos outros: onde? sozinho? comeu? sorriu? vestido ou despido? ah... e depois a alegriazinha de apanhar alguém em falta! - olhe lá! onde estava...? olhe que não é isso o que eu ouvi...
Ah, não, ainda não nos livrámos disso.
Uma estranheza na notícia: a palavra “banquete”. Que a maçonaria se reúna em jantares, seja, mas...”banquete”... imagino o António Arnaut com um faustoso manto de arminho, uma mesa infindável, travessas com opulentos e dourados javalis... hum... talvez exagere...

link erudito...

sexta-feira, abril 08, 2005

Colecção Irresistível. Eve's Diary, Mark Twain

A "Colecção Irresistível" é apenas uma ideia... um "stock", uma gaveta, uma colecção de coisas que nos fazem rir e sentir bem com a vida: textos, imagens, objectos, músicas.... podíamos recorrer a ela nos dias cinzentos, trocar "artigos" com os amigos... Os mais ousados poderiam até usar o clássico ".. tenho uma colecção irresistível... não quer entrar para a ver..?"
Se fizesse essa colecção incluía o "Diário de Adão e Eva" do Mark Twain.
Aqui, Eva vê pela primeira vez um outro ser, a que chama "experiência":
"I followed the other Experiment around, yesterday afternoon, at a distance, to see what it might be for, if I could. But I was not able to make out. I think it is a man. I had never seen a man, but it looked like one, and I feel sure that that is what it is. I realize that I feel more curiosity about it than about any of the other reptiles. If it is a reptile, and I suppose it is; for it has frowsy hair and blue eyes, and looks like a reptile."

quinta-feira, abril 07, 2005

Papa - Fim da primeira parte

Dizem-me que já não se aguentam as televisões e as notícias sobre o Papa. Como não convivo com o electrodoméstico ainda me impressiono com o que vou ouvindo: 4 milhões de pessoas esperadas em Roma !? A partir de hoje proibição de sobrevoar a cidade !? Apelos aos romanos para que dêem guarida aos peregrinos !?
Hoje a Sky publicava uma lista provisória de individualidades presentes no funeral... todos querem marcar presença. É natural, talvez. E bastante curioso. Bom.. já se sabia que é politicamente correcto estar de bem com a igreja. Mas não me parece que seja só isso. É uma dimensão demasiado grande.
Esta é só a primeira parte. Depois do ritual religioso, assistiremos à especulação e à política: a escolha do novo Papa.

terça-feira, abril 05, 2005

one of my favorite emilies...

HEART, we will forget him!
You and I, to-night!
You may forget the warmth he gave,
I will forget the light.

When you have done, pray tell me,
That I my thoughts may dim;
Haste! lest while you’re lagging,
I may remember him!

Emily Dickinson

ok , mês 4...

certamente castigo por invocar os deuses em vão...
Adelante!
Na rua onde trabalho há uma porta que dá para um átrio cheio de azulejos, bonita visão para quem passa. Esta entrada dá acesso a um centro de saúde e a uma casa leiloeira. Às vezes, à porta, a frequência confunde-se, uns senhores de gravata, umas jovens senhoras de tailleur. Serão delegados de propaganda médica ou leiloeiros? Creio que os delegados serão aqueles que parecem mais ansiosos por agradar. Mas, por outro lado, também os frequentadores dos leilões, os intermediários de raridades, olham em volta como quem avalia...

Hoje de manhã, nada disso. Sentado no parapeito da janela, um médico ou enfermeiro de bata branca e bela cabeleira ondulada e grisalha cortejava uma donzela, também de alvas vestes, de longos cabelos louros arruivados e olhos grandes. Dos dois, ele parecia o mais... coquete, com a sua cabeça inclinada, o seu sorriso primaveril.
Namorar. Bonita palavra.

Tenho a certeza que são os mesmos de há séculos, todos estes personagens que se passeiam hoje no coração da cidade.

Dia 5

Deuses... 5/5/5!
não é pela superstição ou pela capicua, embora isso também seja engraçado, mas é porque 5 é meu número preferido. Também devo dizer que vejo os números às cores - não há nada a fazer, penso num número e vejo-o numa cor, alguns mais nítidos que outros... enfim. Bom, 5 é vermelho!
Vibrante e vivo.
Portanto, hoje devia ser o meu dia preferido do ano :) mhmm, lá fora está um belo sol...

Hoje de manhã subi as escadas do metro a sentir o peso da mochila - agora devo andar com o trabalho às costas - com um único pensamento: andar sempre, andar sempre... em frente, em frente, em frente.... não ia com pressa, apenas a andar, andar sempre, e a sentir o peso da mochila.
Quase ao cimo das escadas rolantes, um menino com uma mochila de violino. Uns oito anos, franzinos. Já na rua, voltei a vê-lo de braço dado à mãe. É bonito, meninos de braço dado à mãe... Uma senhora muito composta, com um rosto agradável, pele branca, sem pintura, penteado claro e conservador, um olhar sereno e confiante, um levíssimo, levíssimo sorriso de mona lisa. Uma senhora que gosta de tudo no seu lugar, sem dar nas vistas. Ia também outro menino, 3 cm mais alto que o pequeno músico. Os dois vestidos de igual, blusões castanhos escuros, camisa branca, talvez um pouco adultos. À luz do dia o meu violinista era um pouco pálido, rosto sério. Pensei que parecia um pouco triste. Espero que não.
E espero ter a sabedoria para largar alguns dos pesos da minha mochila.

sábado, abril 02, 2005

Sábado de chuva

Dias de contradições, de pequenos obstáculos, de amarguras públicas e privadas. Dias normais, em suma.

slow car...
“If you’re important, people will wait”, a propósito de um carro lento, John Travolta, no filme Be Cool. O filme é feito de “wise jokes” e “mob- pop”: a cantora sexy e de voz poderosa, o mobster vaidoso que quer ser cool e ninguém leva a sério, o assassino contratado que vive em salões de dança, o mafioso russo que usa capachinho, o bodyguard gay, os produtores de música, os hip-hopers, as dumb blonds... e Travolta e Uma Thurman e muito mais estrelas do que as que estão em cartaz. Gostei de ver o James Wood, o Harvey Keitel, os Black Eyed Peas a tocar com o Sérgio Mendes (wow...) de resto... longo demais.



Um homem bom e inteligente
Há muito tempo que não estava de acordo com uma multidão. Há muito tempo que uma multidão multicultural não estava unida por um afecto tão espontâneo, tão genuíno.
Não tendo religião, estou com os que rezam por João Paulo II.
Gostava de estar na Praça de S.Pedro. Como eles, de ficar um pouco mais de mãos dadas a este homem bom e inteligente. Como eles, creio que ficarei um pouco mais orfã.