terça-feira, dezembro 20, 2016

Conto de Natal - O Menino

O Menino

O frio do deserto não tem corpo. O ar é tão seco e rarefeito que, quando chega a noite e a temperatura cai, o frio gela o sangue e assusta a alma dos homens. Devia ser assim antes do início da criação – apenas o escuro total e aquele frio vazio, inquietante.
Percorrer o deserto é uma arte e uma astúcia. É preciso reconhecer os sinais, fugir aos engodos dos sentidos, perceber pelo cheiro do vento se a gente que lá vem é amiga ou inimiga. Baltasar ia sempre à frente, um pano azul tapava a sua barba negra e os calcanhares nus batiam no dorso do camelo que avançava lentamente. Gaspar, jovem e impaciente, ora avançava ou recuava, atraído por uma palmeira, uma serpente, um redemoinho de areia. Melchior, seguia pachorrentamente, de queixo descaído, quase dormindo. Os três homens seguiam leves, de carga e de espírito.
Tinham deixado ricos presentes a Jesus, que tinha completado os seus 8 dias. Depois de anos de especulação, tinha finalmente chegado o Messias, o escolhido para espalhar a palavra de Deus. Toda a sua vida seria agora orientada pelos poderosos sacerdotes do templo, todos os minutos dos seus dias seriam guiados por um propósito e uma missão.  Os três homens tinham ficado maravilhados com o ritual, as palavras dos sábios e com as profecias vaticinadas para aquele nascimento sagrado.
Poucos ainda sabiam da sua chegada. Numa região onde fervilhavam os boatos, todos os dias aparecia alguém com a notícia do nascimento do Menino. Ora tinha sido num oásis verdejante, ora numa gruta escura, ora debaixo de uma romãzeira cheirosa, até se jurava que uma mulher dera à luz o Salvador num mercado, ao meio dia, no meio de fardos de malaguetas e laranjas, rodeada de cabras e burros.
Mas agora era mesmo Jesus. E era bom este acontecimento – pensava Baltasar - oxalá pusesse fim à agitação constante, não era aconselhável, nem sadio, tanto mexerico.
As estrelas cadentes riscavam o espaço de luz. Os dentes de Gaspar brilhavam, rindo para o céu, com uma alegria infantil. Melchior acordou sobressaltado.
- Já chegámos?
Baltasar e Gaspar olharam para ele com espanto antes de desatarem a rir. Melchior, resmungava:
- O que é que tem? O que é que tem? Muito gostam vocês da risota… Haviam de ter a minha idade… cabeças no ar… para a paródia estão sempre prontos… tolos… criançolas…
E cabeceava novamente, embalado pelas suas palavras e pelo balançar do camelo.
- Melchior! – gritou Gaspar.
-  O que é que tem? O que é que tem? – sobressaltou-se Melchior.
- Já chegámos…
Nazaré estava no horizonte. Cruzavam-se agora com viajantes e mercadores vindos de vários caminhos. As conversas eram sempre as mesmas.
- … e então eu disse 20..., ele 15, eu desci para 18, e fiz negócio, nada mau.
- … ainda há algum resto daquele licor de mel? Belo néctar…
- … diz que o menino vai nascer hoje em Nazaré, os astrólogos fizeram os mapas e diz que não falha…
Lá estava a conversa outra vez. Os três homens gostariam de poder dizer que Jesus já tinha nascido há uma semana. Mas só aos profetas estava reservado fazer revelações. E esses ainda andavam em romagem de aldeia em aldeia, sabe-se lá quando chegariam a Nazaré.
A aldeia fervilhava – era o dia de feira e os visitantes ocupavam todas as estalagens e quartos particulares. Depois de baterem de porta em porta, o melhor que os três homens conseguiram foi partilhar um estábulo com uma outra família. Resignados, tiraram as mantas e entraram.
-  José…? Tu aqui!?
Melchior cumprimentou José com um abraço. O moço era um carpinteiro hábil, um pouco tímido e calado. Estava acompanhado por Maria, a sua jovem esposa, despachada e decidida, ajeitava aos colchões de palha sem se deixar atrapalhar pelo grande ventre. O casal saiu para ir à sopa no albergue ao lado e os três homens instalaram-se.
- Conheces aquela? A Maria? – perguntou Gaspar.
- Quem não conhece…! – respondeu Melchior
Maria tinha uma certa fama… dizia-se fazia tudo para obter favores – um corte de tecido, a melhor peça de carne, frutos raros, óleos perfumados…  sabia de segredos e falava por meias-palavras, havia sempre equívocos com ela. O último, tinha resultado naquela gravidez misteriosa. Algecira, a astróloga-parteira-feiticeira da aldeia garantia que ela continuava virgem! Claro que se sabia que Maria e a velha Algecira eram unha com carne, mas os vizinhos gostavam de histórias.
Outros dois mercadores entraram no estábulo e foram ocupar um canto, comendo carne seca e bebendo vinho. O casal voltou e todos se acomodaram para a noite. Uma estrela cadente passou rasa ao estábulo.
- O sinal! O sinal! – gritou um dos mercadores.
- Eh lá… - o outro mercador endireitou-se e ficou alerta.
No estábulo, os visitantes agitaram-se.
- Disparate! É apenas mais uma estrela!  - disse impaciente Gaspar
- Não, meu amigo, isto não é uma estrela qualquer… repare na trajectória, no brilho, uma chama…. como se anunciasse alguma coisa…  - insistiu um dos mercadores.
- É isso, é isso! É a anunciação, é o salvador que chega hoje! – concordava o outro.
- É preciso cautela a ver sinais, às vezes vêem-se coisas que não estão lá…. – avisava Melchior.
- O senhor está a dizer que eu estou a inventar…? O senhor está a dizer que eu não sei reconhecer os sinais…? O senhor está a duvidar na minha experiência de mais de 40 anos em sinais…? – o mercador enfurecido avançava para Melchior.
Os três homens, os dois mercadores e José estavam agora em pé, uns gritando, outros tentando acalmar os demais.
- É o sinal, só pode ser o sinal!
- Mas como este já ouve muitos!
- Não é a mesma coisa!
- É sim senhor!
- É preciso é ter calma!
- Vem aí, vem aí – gritou uma voz aguda.
- Não pode ser!
- E quem é o senhor para ter essa certeza toda?
- Vem aí, vem aí – gritou de novo a voz aguda.
- Posso afirmar-lhe que sei! Não posso dizer-lhe como, mas sei!
- Ora, assim também eu…
- Calem-se idiotas, não vêm que vem aí? – a voz aguda sobrepunha-se agora. Era Maria agarrada à barriga.
- Maria! – gritou José.
Os três homens correram ao albergue à procura de ajuda. Um mercador aproximou-se de Maria.
- Minha senhora, é…. é ele….?
Maria abriu muito os olhos, vinha aí mais uma contracção.
- A aldeia está cheia, os mais poderosos e ricos mercadores da região já cá estão, as estrelas falaram… diga, diga, senhora... viu o anjo…?
Maria teve apenas um segundo de hesitação antes de soprar:
- Vi anjo….
- O Senhor seja louvado…. é ele…? Diga senhora… é ele?
E Maria repetiu:
- É ele… é ele…
O mercador gritou de alegria e correu para fora do estábulo gritando a boa nova a todos.
A criança estava já aninhada nos braços da mãe. José, com um ar perdido, mirava os dois, muito quieto. Um após outro, os visitantes entravam no estábulo, ajoelhavam-se e depositavam presentes: moedas, sedas raras, jóias azuis e também cabritos, garrafas de vinho, mel, cestas de fruta, ovos, pães e bolos. O mercador tudo anotava. Aproximou-se do casal.
- 50, 50, está bem assim para si, José?
José continuava embasbacado, sem dizer palavra. Maria adiantou-se.
- 60 para nós!
- Oh, minha senhora… isso assim… - protestava o mercador.
- 60! Já disse, ou acaba-se já tudo!
- Pronto… pronto… - concordou o mercador.
Os três viajantes do deserto estavam do lado de fora, agora era impossível romper a multidão que se apinhava à porta do estábulo. Por todo o lado se ouviam os comentários:
- É o verdadeiro Jesus! Olhou para mim e senti-me uma coisa…
- Até vieram os três maiores reis dos confins da terra…
- Trouxeram alforges atestadinhos de ouro, incenso e mirra!
- Ó Jacob, o que é a mirra…?
- Acho que é uma resina, para remédios ou embalsamar… ou sei lá o quê…
- Cruzes, canhoto! Para embalsamar!? Não sabiam oferecer uma coisa mais própria?
Os três homens estavam atónitos.
- Melchior e agora…?
- Agora, nada… a história há-de fazer-se como se há-de fazer.
Gaspar calou-se, intimidado com as palavras sábias do velho. Baltasar suspirou - ultimamente Melchior só dizia aquelas coisas vagas que, francamente, espremidas, não significavam nada… Lentamente puseram-se a caminho. E de novo entraram no deserto, com a sua escuridão do princípio do mundo, o seu frio oco e as suas estrelas que riscavam o céu com a maravilha do acaso.



-- desafio dos alunos de Escrita Criativa da Escrever Escrever







quinta-feira, agosto 18, 2016

poetry



think of it
as a
commission
think of it
think of writing
think of
a city
Lisbon, Lisboa,
a soft sound in a strange language
a round name
a home, a haven, a harbour
an anchor
in light dark dimming days
think of it
the streets,
the tears,
the people
the people
the same people,
exactly the same
since the beginning
through the golden ages,
fires and earthquake and revolutions and parade
the same pride
the same begging
the same cunning
the same sadness
the same suspicion
the same credulity
the same
family
think of it
think of writing it
the white, the blue, the black
the birds, the heath, the river, the traffic, the bridge, the church, the coffee, the sparkle, the wine, the counter, the trash, the noise, the discovery, the castle, the roofs, the sight
the ridicule
memory home family breath
think of it
a woman and a city
the same
think of it as a commission
as something
to do
a woman and a city, the same
an entity
and one day the city is stolen from her
how to write it
think of it

---

now
write about saudade
the feeling
sure
every language knows it
longing
yearning
pinning
missing
sure sure
the pain of goodbye
the nausea of never again
the ripped limb
the knot in the throat
the punch in the stomach
no use hiding from it
no point protecting from it
what hurts us makes us weaker
like it should
but there’s that moment
but there’s that knowing
that seeing is the beginning of not seeing
and you long and fear that moment
and wish you could delay it
knowing
not seeing is the probability of seeing
and seeing is the certainty of not seeing
it must be saudade



quarta-feira, julho 13, 2016

Celeste, Celeste...

Exercício:  a estante do Jorge
Como é dia 13, pegar num livro, ir à página 13 (ou à 13ª página escrita), 13ª linha, copiar a frase e continuar.

(“Estes Amores difíceis”, Júlio Machado Vaz)

Mas assim serás tu a chamar o Eduardo. E tu sabes como ele é – disse a Celeste baixinho.
Estavam sentados à mesa do almoço. O cunhado enrolava bocadinhos de pão nas mãos que depois arrumava nos quadradinhos vermelhos e brancos da toalha de plástico. Os pratos ainda estavam na mesa, cheira a caldeirada e a vinho tinto do barril. As janelas estavam abertas ao calor da tarde. De costas para eles, o papagaio vigiava o hostel em frente.
O cunhado virou-se para trás e Celeste seguiu-lhe o olhar.
- Ainda me lembro do dia em que entrou nesta casa…. tão peladito, amarelinho… piava tão baixinho…
O papagaio virava o pescoço de um lado para outro, de vez em quando soltava uns piados estranhos, estridentes, mas como que abafados.
- Não consigo vê-lo assim… – queixava-se Celeste com o rosto vermelho.
- Já falámos disso… - disse o cunhado impaciente – vamos estragar a nossa vida?
- Eu sei, eu sei… coitado do Eduardo!
O papagaio sobressaltou-se e voou do seu poleiro. As largas asas verdes e laranjas esvoaçaram à volta do casal e assustaram-se com a atrapalhação do cunhado a tentar enxotá-lo.
- Fica quieto, fica quieto – pedia a Celeste.
- Diz mas é isso a ele!
- Ai… tu já sabes como ele é, fica quieto que ele poisa.
O papagaio descansou enfim na mesa. Deu uns passos curtinhos, para a frente e para trás. Ouvia-se o bater das suas patas contra a toalha de plástico e aqueles horríveis piados abafados.  Agitava a cabeça nervosamente de um lado para o outro, tentando livrar-se do elástico que lhe prendia o bico.
- Bem, vamos lá – disse o cunhado decidido, lançando-se para o bicho.
- Tira o elástico! – gritou Celeste – Dá-lhe um último gostinho!
O cunhado puxou o elástico e o papagaio soltou a voz:
- A Celeste anda a comer o cunhado! A Celeste anda a…

Não acabou a frase. As mãos fortes do cunhado retesaram-se e num segundo torceram o pescoço ao papagaio Eduardo. 

segunda-feira, maio 09, 2016

1001 histórias

a história da diva de óculos cor de rosa, a do escritor que ficou com dedos dormentes - se calhar sonhou demais, se calhar passou a escrever sonhos, a verdadeira história do regresso do rei, a história do carpinteiro da mais famosa cadeira, de quando se começou a dizer protestos de amizade, da mulher que perdeu a sua cidade, da penélope=sísifo, do dia em que todas as leis foram escritas, daquele caso verdadeiro dos dois últimos falantes de uma língua rara e que se zangaram e deixaram de falar um com o outro


domingo, maio 08, 2016

escritos a partir de escritos II

Jacques Prévert, Le petit déjeuner du matin



882 dias



Puxou a cadeira para trás
tirou o livro da mala
tirou os óculos da mala
olhou para o relógio
abriu o livro na página 320
viu quantas páginas faltavam
leu até acabarem
guardou os óculos na mala
guardou o livro na mala
a mulher pediu-lhe ajuda
a mulher pediu-lhe o nome
atravessou a rua sem sol
olhou para o relógio
subiu as escadas
lavou as batatas
pôs música a tocar
olhou para a janela
olhou para a cozinha
lembrou-se que era
domingo
lembrou-se de outro
domingo
com música
na cozinha
olhou para o calendário
viu o dia 8
lembrou-se do outro
dia 8
quando era também
domingo
e perguntou-se
se seriam iguais
todos os
domingos